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Editorial:A urna não aceita currículo: velhas glórias, votos cada vez menores

A eleição de 2026 lembrou à política sergipana uma regra desagradável: voto não é herança, muito menos escritura vitalícia. Danielle Garcia, Pastor Heleno e Marcos Franco já conheceram números que hoje parecem pertencer a outra época. Na prática, o eleitor reconhece o rosto, mas pode negar o voto. Santinho antigo não funciona como carnê de fidelidade, e prestígio de ontem não paga a conta eleitoral de hoje.

Danielle Garcia transformou uma trajetória de grande visibilidade numa sequência que exige autocrítica. Após participar da campanha de Alessandro Vieira em 2018, chegou ao segundo turno em Aracaju em 2020, com 109.864 votos. Em 2022, optou pelo Senado e recebeu 206.135, sem se eleger. Na Prefeitura, em 2024, caiu para 16.769; para deputada estadual em 2026, somou 14.115. Cargos e turnos distintos impedem calcular uma perda linear, mas não escondem o esvaziamento de sua força eleitoral. Teria sido mais prudente disputar uma cadeira federal em 2022? Ninguém pode provar o resultado de uma candidatura que não existiu. O que se pode dizer é que o cavalo eleitoral não espera eternamente na porta, mesmo quando a assessoria garante que a sela continua brilhando.

Pastor Heleno também tem um álbum que impressiona mais do que seu resultado recente. Foram 7.736 votos para estadual em 1998, 45.158 para federal em 2002, 61.598 em 2010 e 8.670 na eleição para prefeito de Canindé em 2012. Para senador em 2018, recebeu 165.039. Já na Câmara Federal, passou de 28.173 em 2022 a 15.482 em 2026, redução de cerca de 45% em disputa pelo mesmo cargo. Mandatos e fama não garantem cadeira. Sobre aposentadoria política, só declaração dele permitiria afirmá-la.

Marcos Franco oferece a fotografia mais incômoda. Eleito deputado estadual com 22.847 votos em 1998 e 28.221 em 2002, teve apenas 7.739 para federal em 2026, sendo 2.654 em Laranjeiras. Laranjeiras não o abandonou, mas o resultado tampouco revela força estadual. O apoio associado ao grupo do prefeito Juca de Bala, por mais relevante que parecesse, não produziu a votação esperada. Curtida não é sufrágio, selfie com liderança não é transferência automática de apoio. Marcos descobriu que uma rede de relações pode continuar ativa enquanto a base de votos encolhe. E eleição não tem filtro que disfarce a totalização.

O restante da lista confirma que notoriedade não se converte sozinha em urna cheia. Mendonça Prado, de 89.641 votos para federal em 2010, fez 3.362 em 2026; sua ligação histórica com João Alves Filho ajuda a contextualizar a trajetória, sem autorizar reduzir toda a carreira à influência do ex-governador. Robson Viana obteve 10.968 para federal, após 26.875 para estadual em 2014. Nitinho caiu de 26.696 para 14.286 na mesma disputa federal. Venâncio Fonseca registrou 13.840, diante dos 27.796 para estadual em 2010. Candisse Carvalho fez 13.714 para estadual, após 28.049 na eleição municipal; Elber Batalha caiu de 16.857 para 9.214 em pleitos federais; Sheyla Galba teve 9.775 para federal, depois de 11.969 para estadual em 2018. Comparar cargos diferentes exige cuidado. Ignorar os números, porém, exige uma boa dose de autoengano.

A urna não humilha ninguém: apenas conta votos, sem ouvir discursos de consolação. Alianças, recursos e concorrência influenciam o resultado; nem tudo é rejeição pessoal. Mas também é cômodo culpar o algoritmo, o partido ou a maré quando a candidatura não consegue renovar sua conversa com o eleitor. O recado de 2026 é simples e desconfortável: liderança não se conserva em formol, mandato não é título hereditário e memória afetiva não substitui projeto. Quem quiser voltar a vencer precisa conquistar o presente, em vez de pedir que o eleitor continue morando no passado.

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