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Educação não é gasto. Sergipe entendeu

Há governos que encerram o ano com retrospectiva em PowerPoint e outros que preferem fechar o calendário com fatos concretos, daqueles que não cabem em legenda de rede social. Sergipe, curiosamente, escolheu a segunda opção. Em sequência quase coreografada, o Estado inaugura um Hospital do Câncer, amplia leitos de UTI em Nossa Senhora da Glória e termina o ano legislando algo que parecia improvável até pouco tempo atrás: a criação de sua própria Universidade Estadual.

Sim, Sergipe agora pode dizer, sem constrangimento estatístico, que entrou no clube dos Estados que entenderam que educação superior pública não é luxo, é infraestrutura. Durante décadas, o mapa brasileiro exibia uma anomalia discreta, mas eloquente: praticamente todos os Estados tinham Universidades Estaduais consolidadas, enquanto Sergipe seguia dependente exclusivamente da rede federal. Era como se o Estado tivesse hospital, estrada, porto, mas achasse que o cérebro dava para terceirizar.

A aprovação unânime da lei que cria a Universidade Estadual de Sergipe corrige essa distorção histórica com uma elegância rara na política brasileira, aquela que dispensa fogos e prefere substância. Não se trata apenas de abrir vagas ou inaugurar prédios. Trata-se de fixar talentos, formar profissionais alinhados às demandas locais e parar de exportar jovens promissores como se fossem matéria prima bruta em busca de lapidação alheia.

Enquanto alguns ainda discutem se universidade pública é gasto ou investimento, Sergipe parece ter resolvido o dilema sem reunião interminável nem nota técnica confusa. Basta olhar para os Estados que fizeram isso antes. São Paulo construiu parte de sua musculatura científica e econômica sobre universidades estaduais que funcionam como motores de inovação. O Ceará interiorizou conhecimento. A Bahia transformou campus em polo regional de desenvolvimento. Nenhum deles se arrependeu. Pelo contrário, colhem até hoje os juros desse investimento.

A proposta da nova universidade sergipana não cai na tentação do diploma pelo diploma. O desenho aponta para áreas com demanda real, integração com o setor produtivo, inovação como eixo e formação de professores como prioridade. É o tipo de projeto que não promete revolucionar o mundo, mas melhora muito a vida real, que costuma ser onde as políticas públicas são testadas.

Tudo isso ganha ainda mais peso quando colocado em perspectiva. Um estado que amplia UTIs entende urgência. Um estado que inaugura um Hospital do Câncer entende dignidade. Um estado que cria uma universidade estadual entende futuro. Não é retórica. É encadeamento lógico. E quando políticas públicas começam a conversar entre si, algo raro acontece: o planejamento aparece.

O governador Fábio Mitidieri não precisa dizer que está deixando marca. A marca está ali, distribuída entre saúde, educação e ciência, sem discurso messiânico nem promessas infladas. É uma administração que parece ter entendido que governar não é competir por likes, mas reduzir carências históricas com decisões estruturais.

A Universidade Estadual de Sergipe nasce, portanto, com uma missão clara e um simbolismo maior do que seus primeiros cursos. Ela representa a entrada definitiva do estado em uma agenda que outros já comprovaram ser vencedora. Educação pública superior não resolve tudo, mas sem ela quase nada se sustenta. No fim das contas, Sergipe faz algo simples e raro. Para de explicar o atraso e começa a corrigi-lo. Em tempos de política performática, isso é quase um ato revolucionário

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