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Em Sergipe, a segunda vaga nunca teve dono

Existe uma velha mania na política sergipana de transformar pesquisa eleitoral em escritura registrada em cartório. Basta um levantamento colocar determinado nome dois pontos à frente para, antes mesmo de o café esfriar, surgir candidato escolhendo gabinete, montando equipe e procurando apartamento em Brasília. A história, porém, recomenda menos euforia e mais memória. De Gilvan Rocha a Alessandro Vieira, Sergipe já ofereceu lições suficientes para ensinar uma regra elementar: numa eleição para o Senado, especialmente quando estão em disputa duas vagas, favorito é apenas um título provisório e pesquisa não concede diploma.

Gilvan Rocha deu uma dessas aulas ao derrotar Leandro Maciel e a poderosa Arena, numa disputa em que a estrutura governista parecia maior do que a própria candidatura oposicionista. Em 1986, veio outra advertência. Antônio Carlos Valadares venceu a eleição para o governo, mas sua aliança não conseguiu carregar os dois candidatos ao Senado. Lourival Baptista foi eleito, enquanto Viana de Assis terminou apenas 5.295 votos atrás de Francisco Rollemberg. Em Sergipe, champanhe eleitoral deve permanecer fechada enquanto houver urna por apurar e, de preferência, até o resultado ser proclamado.

Em 1994, a pedagogia virou curso intensivo. Albano Franco liderava uma coligação tão numerosa que mais parecia lista telefônica, venceu o governo e reunia ao seu redor boa parte do peso político do Estado. Ainda assim, o eleitor fez aquilo que costuma fazer quando algum grupo imagina ser seu proprietário: desobedeceu. Para o Senado, Antônio Carlos Valadares e José Eduardo Dutra derrotaram Lourival Baptista e José Carlos Teixeira. Albano levou o Palácio; seus candidatos ao Senado levaram para casa a lembrança de que voto casado não vem acompanhado de certidão de casamento.

Em 2002, a urna voltou a embaralhar as cartas ao eleger Valadares e Almeida Lima, representantes de arranjos políticos distintos. Em 2010, Eduardo Amorim e Valadares protagonizaram uma disputa mais previsível, talvez apenas para a história recuperar o fôlego. Mas 2018 devolveu Sergipe à sua verdadeira especialidade: contrariar certezas fabricadas antes da abertura das urnas. Levantamentos daquele período apresentavam Valadares, André Moura e Jackson Barreto nas primeiras posições, enquanto Alessandro Vieira e Rogério Carvalho apareciam atrás. No resultado definitivo, justamente Alessandro e Rogério conquistaram as duas cadeiras. A pesquisa tirou a fotografia; o eleitor trocou os personagens antes de revelar o filme.

Por isso, a eleição de 2026 exige prudência redobrada. Um levantamento coloca André David na frente; outro aponta Alessandro Vieira; um terceiro apresenta Rogério Carvalho em primeiro. André Moura sobe numa pesquisa e desce em outra. No fim de agosto, a Quaest ainda registrava 79% de indefinição na pergunta espontânea para o Senado. Isso não é eleição resolvida; é uma eleição que ainda procura o próprio roteiro. Com dois votos por eleitor, onze candidaturas e uma segunda escolha que frequentemente só se define na reta final, cadeira reservada existe apenas na sala de espera do aeroporto.

Pesquisas são instrumentos importantes: registram tendências, medem movimentos e ajudam a compreender determinado momento da campanha. O problema começa quando deixam de ser apresentadas como fotografia e passam a ser vendidas como profecia. A história eleitoral de Sergipe é uma coleção de advertências contra essa arrogância estatística. Há duas vagas, inúmeros cruzamentos possíveis e um eleitor que, há décadas, demonstra especial prazer em desmontar chapas previamente montadas pelos caciques.

Ninguém deveria subestimar André Moura, Rogério Carvalho, Alessandro Vieira, Eduardo Amorim, Edvaldo Nogueira, André David ou qualquer candidatura com presença política e capacidade de crescimento. A eleição para o Senado continua rigorosamente aberta. Quem quiser anunciar o resultado antes de outubro pode até comprar os fogos, escolher a música da vitória e mandar fazer o terno da posse. Mas seria prudente guardar a nota fiscal porque, em Sergipe, a urna costuma ter pouca paciência com quem comemora antes do eleitor.

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