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Enquanto o Brasil tributa, o Paraguai acolhe

Há um fenômeno em curso diante do nariz de Brasília e sob o radar de boa parte da elite política, mas perfeitamente visível para qualquer cidadão que vá ao supermercado, tente comprar um carro ou pague aluguel no fim do mês. O Paraguai deixou de ser apenas o destino folclórico do “bate e volta” da fronteira para compras baratas e virou, com método, cálculo e previsibilidade, um polo de atração para indústrias, investimentos e brasileiros cansados de pagar caro para existir. Não é ideologia. É aritmética.

O símbolo mais incômodo desse movimento é a indústria. Não porque fábricas tenham nacionalidade sentimental, mas porque elas obedecem a uma lógica simples: margem, custo e previsibilidade. O número exato de empresas que fecharam as portas no Brasil e reabriram com o mesmo CNPJ no Paraguai é difícil de cravar, porque muitas migram por etapas, terceirizam parte da produção ou abrem unidades novas fora mantendo o escritório aqui. Mas existe um dado duro, impossível de ignorar. Em 2025, o Paraguai contava com cerca de 292 indústrias operando sob o regime de maquila, e aproximadamente 71% delas têm origem brasileira. Traduzindo para o português claro, são mais de 200 empresas brasileiras produzindo no Paraguai sob um modelo pensado exatamente para aquilo que o Brasil tornou penoso: fabricar.

O regime de maquila é didático. Ele permite importar máquinas e insumos, produzir localmente e pagar, na exportação, um imposto único de 1% sobre o valor agregado no território paraguaio. Um por cento. No Brasil, essa frase soaria como piada de mau gosto ou ataque à soberania do carnê. Some-se a isso energia competitiva, burocracia enxuta e regras que não mudam conforme o humor do Diário Oficial. O resultado aparece nos números. As exportações das maquiladoras paraguaias já passam da casa de 1 bilhão de dólares, com o Brasil absorvendo a maior parte desse volume. Em outras palavras, o Brasil virou cliente do próprio custo Brasil.

A explicação não está em genialidade paraguaia nem em incompetência congênita brasileira. Está no desenho institucional. O Paraguai vende previsibilidade e simplicidade. O Brasil vende emoção tributária, surpresa regulatória e a sensação constante de que o empreendedor está sempre devendo alguma coisa, mesmo quando acabou de pagar tudo. A indústria não tem ideologia. Ela tem planilha.

Essa lógica se estende para a vida cotidiana, onde o brasileiro entende tudo sem precisar de economista. Carro, aluguel, comida, conta básica. A comparação de veículos entre os dois países é quase uma aula prática sobre tributação. Modelos populares custam, no Paraguai, o equivalente a uma fração do preço brasileiro. Um carro de entrada lá custa algo próximo de nove mil dólares. Aqui, o mesmo conceito de veículo chega perto ou ultrapassa oitenta mil reais. A diferença não está no volante, no banco ou no motor. Está no imposto empilhado sobre imposto, no custo financeiro embutido e na burocracia que transforma qualquer bem durável em artigo de luxo parcelado em 60 vezes.

Quando o assunto é carro elétrico, o contraste fica ainda mais cruel. No Brasil, além da carga tributária, existe a “taxa da novidade”, o custo do crédito caro e a logística onerada. O discurso ambiental é bonito, mas o preço final é hostil. No Paraguai, com menos gordura fiscal e menos camadas de custo, a barreira de entrada é menor. Não é que o carro elétrico seja barato. É que ele não vem acompanhado de um tratado tributário invisível.

Moradia segue o mesmo roteiro. Comparações entre grandes cidades mostram que alugar em Assunção custa sensivelmente menos do que em capitais brasileiras como São Paulo. Na prática, isso significa a diferença entre um aluguel que devora o salário e um aluguel que apenas belisca. Ainda dói, mas dá para respirar. No Brasil, o cidadão trabalha para morar perto do trabalho e paga como se estivesse financiando o Estado junto com o imóvel.

A alimentação repete o padrão. Não é que no Paraguai tudo seja barato. É que no Brasil tudo carrega um adicional invisível de imposto, frete, juros e ineficiência. Até o arroz vem com contribuição embutida para sustentar um sistema que promete muito e entrega pouco. Água, luz e serviços básicos completam o pacote. No Brasil, você paga a conta e ainda financia a sensação de culpa por reclamar. No Paraguai, o custo é menor e o serviço, ainda que não perfeito, não vem acompanhado de um discurso moralizante.

A saúde exige honestidade intelectual. O Brasil tem o SUS, um ativo civilizatório em escala, mas pressionado por filas, desigualdade regional e subfinanciamento crônico. Quem pode, migra para o plano privado e paga duas vezes. No Paraguai, o sistema é mais segmentado, com forte presença do setor privado para quem pode pagar. O ponto não é dizer que um sistema é perfeito e o outro falido. É constatar que, para muitos, o custo direto da saúde pesa menos no Paraguai do que o combo brasileiro de imposto, plano, coparticipação e espera.

A cereja do bolo é o imposto de renda. No Brasil, o cidadão paga imposto pesado no consumo e depois é informado de que pode deduzir algumas despesas específicas, dentro de limites e regras. O resto vira esporte radical chamado cidadania. No Paraguai, também existem regras e deduções condicionadas, mas o sistema é mais simples e a carga sobre o consumo é menor. Nenhum país transforma “tudo o que você consome” em dedução mágica, mas a diferença está no peso do Estado sobre cada transação da vida cotidiana. No Brasil, ele senta no colo do contribuinte. No Paraguai, ele observa de uma distância menos sufocante.

Esse movimento não acontece no vácuo. O Uruguai entra na comparação como um terceiro modelo. Não é barato como o Paraguai, mas é previsível, organizado e institucionalmente sólido. Cobra mais, entrega mais e atrai outro perfil de investidor e residente. É o primo organizado da família. O Paraguai é o vizinho pragmático. O Brasil, cada vez mais, parece o parente barulhento que cobra caro para participar da festa e ainda muda as regras no meio do jogo.

O risco para o Brasil é claro e não tem nada de ideológico. Quando produzir vira castigo, investir vira esporte radical e morar vira teste de resistência, o capital atravessa a fronteira. Com ele vão empregos, cadeias produtivas, arrecadação futura e capacidade de inovação. O país não perde apenas fábricas. Perde densidade econômica. E aí surge a pergunta incômoda que nenhum governo gosta de responder sem roteiro. Qual é o plano para o Brasil não virar apenas um grande mercado consumidor de produtos fabricados por empresas brasileiras fora do Brasil?

Não se trata de demonizar o Paraguai nem de idealizar o Uruguai. Nenhum deles é paraíso. Mas ambos estão dando uma aula simples ao Brasil. Previsibilidade importa. Simplicidade importa. Custo importa. O brasileiro não está abandonando o país por capricho ou modismo ideológico. Está fazendo o que sempre fez ao longo da história: procurando onde a vida cabe no orçamento e o trabalho rende mais do que a burocracia.

O Brasil ainda é grande, tem mercado, gente talentosa e setores industriais robustos. Mas grandeza não paga boleto. Patriotismo não cobre juros. Enquanto o Estado insistir em ser sócio majoritário de tudo, da fábrica ao aluguel, o Paraguai continuará sendo aquele vizinho que não promete milagre, mas entrega uma conta que fecha. E em economia, goste-se ou não, quem fecha a conta governa. Mesmo sem eleição.

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