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Entre a justiça fiscal e a piada pronta quem paga é o brasileiro

O Brasil entrou numa fase curiosa da sua história recente. Não se trata apenas de governar, mas de tributar com criatividade. Onde antes havia imposto conhecido, agora há imposto reinventado. Onde antes havia promessa de simplificação, agora há explicação em power point. E onde antes havia prudência fiscal, agora há uma criatividade arrecadatória que parece não conhecer limite nem pudor.

O governo federal resolveu testar até onde vai a paciência do bolso do brasileiro. A cada mês surge uma nova ideia, uma nova contribuição, uma nova forma de chamar imposto sem dizer a palavra imposto. É taxa, é ajuste, é contribuição solidária, é modernização, é justiça fiscal. Tudo muito bonito no discurso, tudo muito pesado na fatura.

O cidadão comum sente primeiro no condomínio. Aumento de taxa aqui, reajuste ali, custo de energia mais caro, manutenção mais onerosa, impostos embutidos em tudo. O elevador sobe mais caro, o porteiro custa mais, o lixo pesa mais no orçamento. Não porque o condomínio enlouqueceu, mas porque o Estado resolveu apertar cada elo da corrente produtiva e o custo sempre escorre para quem mora no último andar da realidade.

O setor de reciclagem, que deveria ser estimulado, virou mais um campo de incidência tributária confusa. Mudam regras, surgem exigências ambientais acompanhadas de taxas e licenças, criam-se obrigações burocráticas que só grandes empresas conseguem cumprir. Pequenos recicladores fecham, cooperativas sofrem, enquanto o discurso oficial fala em sustentabilidade e inclusão produtiva. Sustentável mesmo tem sido apenas a arrecadação.

No mercado imobiliário, o recado foi direto. Alugar imóvel virou quase um ato de resistência. A combinação de imposto de renda, contribuições indiretas e novas interpretações fiscais faz com que parte significativa do valor do aluguel escorra para o Estado. O proprietário paga, o inquilino repassa, o preço sobe, a moradia fica mais difícil e o governo comemora a eficiência arrecadatória como se fosse vitória social.

Enquanto isso, no mundo paralelo das políticas públicas, surge a ideia de criar benefícios para infratores. Uma bolsa de ressocialização, um auxílio para quem já foi apreendido, um incentivo travestido de política social. O discurso é bonito, a realidade é indigesta. Servidores enfrentam atrasos, categorias reclamam de reajustes represados, profissionais essenciais apertam o cinto, mas o Estado encontra dinheiro para premiar o desvio de conduta. A mensagem que fica não é pedagógica, é esquizofrênica.

No campo dos impostos patrimoniais, o impacto é ainda mais silencioso e cruel. A proposta de mudanças no imposto sobre herança e doação altera bases de cálculo, amplia alíquotas e atinge diretamente famílias que não são milionárias, mas que construíram patrimônio ao longo de décadas. Herança passa a ser tratada como privilégio indevido, como se poupar e planejar o futuro fosse um pecado fiscal. O recado é simples. Trabalhe, acumule, morra e deixe o Estado herdar primeiro.

Enquanto isso, indústrias começam a fazer as malas. Algumas discretamente, outras de forma mais explícita. O custo Brasil deixou de ser conceito abstrato e virou planilha concreta. Energia cara, imposto instável, regra que muda no meio do jogo, insegurança jurídica e discurso hostil ao lucro. Investimento não gosta de susto. E o governo parece gostar de assustar.

Nas redes sociais, o retrato é ainda mais ácido. Pequenos empresários reclamam, autônomos ironizam, trabalhadores fazem contas e não fecham. A cada anúncio oficial, surge um meme novo, uma piada amarga, uma comparação com países onde se produz mais e se tributa menos. O humor virou mecanismo de defesa coletiva diante de um Estado que tributa como se o dinheiro brotasse do asfalto.

O déficit fiscal segue rondando como fantasma que ninguém quer encarar de frente. Para fechar contas, o governo prefere abrir novas torneiras tributárias em vez de fechar ralos de desperdício. A narrativa é sempre a mesma. É preciso arrecadar mais para gastar melhor. O problema é que arrecada-se mais e gasta-se do mesmo jeito.

Tudo isso acontece às vésperas de um novo ciclo eleitoral. E o eleitor começa a perceber que o discurso social não combina com a prática fiscal. Fala-se em justiça, mas cobra-se sem critério. Fala-se em inclusão, mas encarece-se a vida de quem produz. Fala-se em futuro, mas empurra-se o presente para o limite do suportável.

O governo federal parece acreditar que o brasileiro aguenta tudo. Aguenta imposto alto, aguenta serviço ruim, aguenta discurso contraditório. Talvez aguente mesmo. Mas não sem reação. A história mostra que o bolso é o primeiro a acordar o eleitor. E quando acorda, costuma fazer barulho.

No fim das contas, o Brasil vive uma experiência curiosa. Nunca se falou tanto em justiça fiscal cobrando tanto de quem já paga tudo. Nunca se prometeu tanto alívio criando tanta pressão. E nunca se pediu tanta paciência oferecendo tão pouco retorno. Se a ideia era transformar imposto em política pública, o resultado até agora tem sido transformar política pública em piada amarga. E dessas que o brasileiro ri para não chorar.

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