Sergipe amanheceu com a sensação de que crise interna não faz barulho de porta batendo. Faz eco. E o eco da entrevista de Alessandro Vieira ainda percorre corredores, gabinetes e grupos de WhatsApp do próprio campo governista. O problema não foi apenas o conteúdo. Foi o alvo. Em política, quando dois nomes dividem o mesmo palanque majoritário, espera-se divergência estratégica, disputa silenciosa por espaço, competição por território. O que não se espera é artilharia aberta mirando o companheiro de chapa. Alessandro decidiu atirar para dentro. E quando se atira para dentro, alguém sempre sangra. Ou o aliado. Ou o projeto.
A pergunta que ficou no ar não é jurídica. É psicológica. O que move Alessandro a tensionar publicamente alguém que compõe o mesmo campo político? Convicção? Cálculo? Ou a inquietação de quem percebe que o palco nacional nem sempre se converte em aplauso local? Em ano pré-eleitoral, timing não é detalhe, é diagnóstico. A entrevista não fortaleceu posição. Exibiu ansiedade. E ansiedade, em política, costuma ser percebida antes mesmo de ser explicada.
Há um paradoxo curioso na postura de Alessandro. Na GloboNews, ele veste o figurino de caçador implacável, convoca depoimentos, cobra explicações, adota o tom de delegado moral da República. Ali ele fala grosso, ergue a voz, posa de fiscal da ética nacional. Mas quando desce do estúdio e pisa no chão de Sergipe, o script muda. Aqui, o embate não é contra o sistema abstrato. É contra o aliado concreto. O caçador vira atirador de trincheira doméstica. E isso sempre gera a pergunta incômoda: por que a mira não está apontada para os adversários reais?
Se era para confrontar alguém, talvez o endereço fosse outro. Talvez o embate devesse ser com Rodrigo Valadares, que, em entrevista ao lado de Flávio Bolsonaro, não economizou palavras ao falar de Alessandro. Flávio foi direto, sem rodeios, e deixou registrado, entre aspas, o que considera ser a marca do senador: “Ele se elegeu com os votos bolsonaristas e depois virou as costas. Não é de direita coisa nenhuma”. Foi mais além ao insinuar que Alessandro seria “vermelho disfarçado”. Diante de declarações assim, era de se imaginar uma resposta dura, um confronto frontal. Mas não. O confronto escolhido foi interno. É como se a energia combativa se esgotasse antes de atravessar a fronteira do próprio grupo.
Enquanto isso, André Moura manteve o padrão que o caracteriza. Observação. Silêncio estratégico. Política é xadrez, não programa de debate. Quem joga há décadas sabe que movimento impulsivo costuma custar peça importante. André não subiu o tom. Não embarcou na provocação. Preferiu continuar fazendo o que sabe: articulação territorial. E números, em política, falam alto. Segundo aliados, André levou 25 prefeitos para fortalecer o projeto de Fábio Mitidieri. É capilaridade. É presença no interior. É voto pulverizado que soma no final.
Do outro lado da equação, a reciprocidade foi, no mínimo, modesta. Dos 24 prefeitos que orbitavam o campo direto do governador, apenas dois teriam sido direcionados para compor com André. Os demais ficaram livres para escolher quem quisessem. Muitos migraram para Alessandro. Outros ensaiam simpatia por Rogério Carvalho. Alguns flertam com Edvaldo Nogueira. Política é matemática emocional. Quando a conta não fecha, o sentimento vira insatisfação. E insatisfação organizada vira pressão.
O episódio envolvendo Katarina Feitosa adicionou um tempero quase didático à crise. O primeiro suplente de André, Ricardo Vasconcelos, declarou apoio público a Katarina. Horas depois, Katarina declarou apoio a Alessandro Vieira, mas não declarou apoio a André. Política é via de mão dupla. Se o suplente vota nela e ela não vota no titular da chapa do suplente, a conta não é sofisticada, é simples. André cobrou articulação. E com razão. Apoio que não retorna não é aliança. É empréstimo sem garantia. Em política, isso costuma ter juros altos.
O ruído se amplifica quando se observa que a deputada Maísa Mitidieri e a primeira dama Érica Mitidieri já haviam declarado apoio a Alessandro, mas até agora não declararam apoio a André. Fotografia, em política, é linguagem. Quem aparece na imagem manda recado. Quem fica fora também. O governo precisa dizer com clareza qual é a linha. Está com Alessandro e com André ou está apenas com Alessandro. Ou estaria aguardando a eventual entrada de Rogério Carvalho para reorganizar o tabuleiro e, só então, definir oficialmente sua posição? Liderança exige nitidez. Quando o comando não arbitra, o grupo interpreta. E interpretação prolongada vira desconfiança acumulada.
Nos bastidores, cresce a pressão por definição. Há aliados de André que já falam abertamente em rompimento. O argumento é simples: não se pode carregar 25 prefeitos nas costas e assistir à própria base ser fragmentada sem reação. Enquanto isso, prefeitos orbitam alternativas, testam conversas paralelas, aguardam sinal verde que não vem. O efeito é perigoso. André começa a ser tratado como peça isolada dentro do próprio arranjo que ajudou a construir. E quando um grupo não sabe quem é prioridade, o eleitor começa a perguntar quem realmente comanda o campo governista.
Se André resolvesse romper, o cenário mudaria de eixo. Ele tem estrutura partidária e base municipal consolidada. Poderia lançar candidatura própria ao Senado sem depender da chancela do Palácio. Poderia redesenhar alianças. Na oposição, Valmir de Francisquinho e Edvan Amorim já sinalizam portas abertas. O recado é claro: se atravessar a rua, será recebido com protagonismo. Política não suporta vácuo. Onde há desconforto, há convite. E o próprio governador já ensinou a lógica ao dizer que, se Marcos Oliveira que supostamente teria sido chutado por Valmir quisesse vir, seria bem recebido. A regra vale para todos. Quem acolhe dissidente alheio precisa saber que o mesmo gesto pode ser reproduzido do outro lado.
Alessandro tem trajetória nacional, visibilidade, presença em debates amplos. Mas visibilidade não substitui base. Holofote não substitui chão. Sergipe não é estúdio de televisão. É município por município, é liderança por liderança, é prefeito que liga de madrugada cobrando atenção. E é nesse terreno que André opera com desenvoltura. O risco não é apenas desconforto interno. É fragmentação progressiva. Grupos políticos não implodem com explosão cinematográfica. Eles se desfazem por acúmulo de pequenas fissuras ignoradas.
Fábio Mitidieri está diante de uma escolha clássica de liderança. Arbitrar agora ou administrar crise ampliada depois. Silêncio prolongado não é neutralidade. É sinal. E sinal, em política, nunca passa despercebido. A pergunta que ecoa não é apenas sobre Alessandro ou André. É sobre comando. Quem organiza o bloco? Quem define a estratégia? Quem segura o volante? Porque fogo amigo raramente ilumina. Normalmente consome. E 2026 não espera quem ainda está discutindo quem manda na casa.




