Quando a secretária de Cultura de uma das cidades mais antigas do Brasil decide comparar a vice-prefeita a “um cachorro”, a pergunta deixa de ser política e passa a ser civilizatória. É essa cultura que São Cristóvão merece? É essa a pedagogia institucional que sai da Secretaria comandada por Paola Santana? A quarta cidade mais antiga do país, patrimônio histórico, berço de memória e tradição, agora precisa assistir à própria Cultura virar manchete por deboche e descontrole verbal. Não é sobre divergência ideológica. É sobre nível.
Paola Santana não apenas declarou que a chapa “ganhava até com um cachorro ao lado”, numa referência direta à vice-prefeita Gedalva Umbaúba. Ela já foi vista em fotografias fazendo gesto obsceno direcionado a eleitores que não votaram em seu pai, Marco Santana. Não estamos falando de um episódio isolado. Estamos falando de padrão. E padrão comportamental, quando parte de quem ocupa cargo público, deixa de ser algo privado e passa a ser símbolo. Símbolo de quê? De desprezo. Desprezo pela divergência, desprezo pela liturgia do cargo, desprezo pela própria imagem institucional que deveria preservar.
E aqui cabe a pergunta que ecoa nas salas de aula: é isso que a Secretaria de Cultura ensina nas escolas de São Cristóvão? Que discordar é levantar o dedo? Que mulher eleita pode ser reduzida a metáfora animal? Que o debate público se faz com ofensa e riso debochado? Cultura não é apenas organizar festa, inaugurar palco e distribuir edital. Cultura é formar referência simbólica. É ser exemplo. Quando a referência é agressividade e escárnio, o que se transmite não é liderança. É imaturidade emocional com crachá.
Gedalva Umbaúba tem mais de 60 anos, trajetória consolidada e ajudou a compor uma chapa que recebeu 25.872 votos. Voto é legitimidade democrática. Não é figurino que se descarta depois da eleição. Comparar uma mulher eleita a um cachorro não diminui Gedalva. Diminui quem fala. Como psicóloga, afirmo com serenidade técnica: a desumanização é sempre estratégia de quem não consegue enfrentar o outro no campo das ideias. Atacar a dignidade é atalho para quem não sustenta argumento.
São Cristóvão merece grandeza compatível com sua história. Merece uma Secretaria de Cultura que eleve o debate, que inspire jovens, que represente o município com postura e equilíbrio. A pergunta permanece, incômoda e necessária: é essa secretária que traduz a cultura da cidade? Porque se for, estamos confundindo patrimônio histórico com retrocesso moral. E respeito, em gestão pública, não é detalhe opcional. É o mínimo civilizatório.




