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Gipão: o adeus silencioso de um intelectual do futebol

A renúncia de Clóvis Barbosa de Melo à presidência do Club Sportivo Sergipe encerra um capítulo breve, mas simbólico, na história recente do Gipão. Homem de ideias amplas e de formação rara no meio esportivo, Clóvis assumiu o clube em meio à turbulência, tentando transformar uma instituição endividada em um projeto de futuro. A tarefa, contudo, mostrou-se maior que o fôlego financeiro da casa.

O clube vive, há anos, um colapso administrativo crônico,  uma engrenagem que gira com mais paixão do que gestão. Dívidas acumuladas, acordos trabalhistas pendentes e uma estrutura quase amadora colocam o clube em estado de asfixia permanente. Clóvis tentou inverter essa lógica: queria profissionalizar o time, modernizar a gestão e iniciar o caminho rumo à transformação em SAF (Sociedade Anônima do Futebol). Era um projeto ousado, técnico e institucional, o tipo de reforma que exige tempo, capital e paciência.

Mas, como costuma acontecer no futebol brasileiro, o tempo é curto, o capital escasso e a paciência inexistente. A saída de Clóvis revela um fato incômodo: o Sergipe precisa mais do que dirigentes apaixonados, precisa de administradores especializados em recuperação. Hoje, o clube não precisa apenas de motivação, mas de planejamento financeiro, gestão de passivos e credibilidade institucional. E, convenhamos, não há projeto de reestruturação que sobreviva quando o caixa está no vermelho e o estádio ecoa dívidas em vez de aplausos.

Clóvis, com sua história de serviço público, procurador da Universidade Federal de Sergipe, secretário de Estado, conselheiro e presidente do Tribunal de Contas, tentou aplicar ao futebol a mesma racionalidade que marcou sua vida profissional. Mas administrar paixão é diferente de gerir orçamento público. No campo, o coração fala mais alto que a planilha.
E, diante de uma máquina quebrada e de uma saúde que já pede cuidados, Clóvis fez o gesto mais sensato possível: deixar o comando antes de ser engolido por ele. O gesto é discreto, mas eloquente. Vem de alguém que entende que liderar também é saber a hora de sair.

Aos 70+ anos, Clóvis não abandona o Sergipe, apenas devolve a chave com dignidade e respeito à própria trajetória. Seu nome, e o de sua família, Ramon Barbosa, seu irmão, também ex-dirigente, e a lembrança do saudoso Reinaldo Moura, pai do ex-deputado André Moura, figura lendária do futebol sergipano, ficam como parte da história de um clube que sobrevive mais pela alma de seus homens do que pela força de suas finanças.

Mas o futuro do Gipão não pode depender apenas da boa vontade de dirigentes abnegados. É hora de a torcida rubra se mover, não apenas com aplausos, mas com apoio real. Se cada torcedor contribuir com o que pode, cinco, dez reais por mês, o clube pode começar a respirar. O futebol precisa voltar a ser uma causa coletiva, não um sacrifício solitário.

O Sergipe precisa de um novo tipo de dirigente: alguém com a frieza de um economista e o coração de um torcedor. Clóvis Barbosa tentou abrir essa trilha, e sua saída, embora melancólica, é também um alerta. O clube mais tradicional do Estado está vivo, mas respira por aparelhos e o tempo, como no futebol, continua correndo.

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