A política tem um defeito que também é sua maior virtude: ela grava tudo. Em Sergipe, as últimas semanas lembraram que discurso não tem prazo de validade. O que ontem era manchete contra um adversário, hoje reaparece como cobrança entre aliados. E não foi a oposição que puxou essas gravações. Foram os próprios personagens que resolveram revisitar o próprio passado.
Rogério Carvalho foi um dos críticos mais duros da gestão de Fábio Mitidieri. Em entrevistas públicas, questionou a condução do governo na área da saúde, defendeu investigações, o chamou de governo corrupto e provocou forte reação do governador, que respondeu dizendo que havia sido acusado sem provas e chegou a chamá-lo de “senador de calça frouxa”. Agora, diante de uma aproximação política, o eleitor inevitavelmente compara o discurso antigo com a fotografia atual. A política permite alianças, mas a memória do eleitor costuma cobrar explicações.
O segundo capítulo veio com Alessandro Vieira. Em entrevista, afirmou que André Moura “sempre”correria o risco de acordar com a polícia batendo à porta. A declaração provocou enorme repercussão política. Curiosamente, na mesma entrevista, Alessandro reconheceu que André possuía liderança e capacidade de articulação. Foi uma combinação rara: crítica severa e reconhecimento político no mesmo discurso. Poucos dias depois, a convivência na chapa tornou-se inviável e Alessandro deixou o grupo governista.
Enquanto isso, André Moura preferiu outro caminho. Evitou ampliar o conflito e respondeu com discrição. Em política, silêncio também comunica. Há momentos em que responder é alimentar a polêmica; em outros, deixar que o tempo faça o trabalho pode ser uma estratégia mais eficiente. André optou pela segunda alternativa, preservando seu espaço na articulação política e mantendo a interlocução com aliados.
Outro episódio recente envolveu Samuel Carvalho. Ao reagir às críticas de Rogério Carvalho sobre o Forró Siri, o prefeito afirmou que o senador teria divulgado “fake news” e agido como “mau-caráter“. No plano jurídico, esse tipo de expressão pode suscitar discussão sobre eventual ofensa à honra, dependendo do contexto e das circunstâncias. A jurisprudência costuma admitir maior tolerância no debate político, mas isso não significa que qualquer expressão esteja automaticamente protegida. O ambiente eleitoral amplia a liberdade de crítica, mas não elimina completamente os limites impostos pelo direito.
Esses episódios revelam um desafio comum às grandes coalizões: administrar histórias que, até pouco tempo atrás, eram de enfrentamento público. Alianças políticas são legítimas em democracias multipartidárias, mas exigem coerência narrativa. Quando antigos adversários passam a dividir o mesmo projeto, a principal pergunta deixa de ser jurídica e passa a ser política: como convencer o eleitor de que as divergências ficaram realmente para trás?
O governador Fábio Mitidieri enfrenta justamente esse desafio. Além de administrar a máquina pública, precisa coordenar expectativas, discursos e diferenças entre lideranças que possuem trajetórias distintas e, em alguns casos, marcadas por críticas recíprocas. Essa é uma tarefa complexa em qualquer governo de coalizão. A política exige composição, mas também exige capacidade de harmonizar vozes que, até ontem, falavam em direções opostas.
No fim das contas, Sergipe assiste a uma velha lição da política brasileira: adversários podem se tornar aliados, aliados podem voltar a ser adversários, mas as declarações permanecem registradas. O eleitor de hoje dispõe de vídeos, entrevistas e redes sociais para comparar passado e presente. E talvez essa seja a maior novidade da política contemporânea: a memória deixou de depender da lembrança das pessoas e passou a morar definitivamente na internet.




