O governador Fábio Mitidieri volta novamente ao Guajará para anunciar a tão esperada ordem de serviço da obra que virou praticamente uma lenda urbana de Nossa Senhora do Socorro. O povo do bairro já ouviu tanta promessa de drenagem, pavimentação e urbanização que, se cada discurso virasse pedra, o Guajará já tinha virado Dubai sertaneja. E não é exagero. Em época de chuva, a situação ali fica tão dramática que até carro do Corpo de Bombeiros já atolou tentando entrar no bairro. Tem trecho onde só sobe moto de trilha, e olhe lá.
Agora o governo chega prometendo uma obra gigantesca de mais de R$ 230 milhões, envolvendo drenagem, saneamento, pavimentação e mobilidade urbana em 122 ruas. E justiça seja feita: o investimento é realmente grande e necessário. O problema é que o povo de Socorro já está com trauma de fita inaugural. Desde a época de José Franco se fala em resolver o drama do Guajará. Depois veio Fábio Henrique com promessa do “lama zero”. O tempo passou, o barro ficou, o povo atolou e o Guajará continuou parecendo prova prática de rally no inverno.
No meio dessa história aparece Samuel Carvalho, que venceu a eleição com votação histórica em Socorro, mas que até agora vem acumulando mais aperreio político do que inauguração memorável. Samuel entrou na prefeitura com aquela energia de quem prometia reorganizar o município rapidamente. Só que a gestão começou tropeçando em crise, desgaste, reclamação de bairro, tensão política e muita cobrança nas redes sociais. Em Socorro hoje existe uma espécie de campeonato municipal de “quem reclama primeiro”. O cidadão abre o Instagram e encontra reclamação de buraco, lama, trânsito, iluminação, posto de saúde e até da chuva que caiu torta.
E aí entra a ironia da política sergipana. Quem está salvando o discurso da gestão municipal é justamente o governo estadual. O povo quer máquina trabalhando, barro virando asfalto e esgoto deixando de correr na porta de casa. Não quer mais PowerPoint de drenagem nem vídeo institucional com drone voando em cima da lama. E nisso Fábio acaba chegando como aquele tio rico da família que aparece no churrasco trazendo presente depois de anos ouvindo reclamação.
O mais engraçado é que o Guajará virou símbolo perfeito da política de Socorro. Todo prefeito promete resolver. Todo governador anuncia. Todo vereador grava vídeo. E o povo continua tentando atravessar a lama sem perder o chinelo. Só que agora a cobrança aumentou porque Samuel já está entrando no segundo ano de gestão e a paciência do socorrense não vem mais com amortecedor político. O eleitor de Socorro gosta de político presente, gosta de obra aparecendo e gosta de resultado rápido. E quando não vê isso, começa a mandar recado direto na feira, na rádio, no Instagram e no grupo da família.
No fim das contas, a verdade é uma só. O povo do Guajará não quer mais cerimônia política com discurso emocionado e abraço para fotografia. Quer dignidade. Quer sair de casa sem precisar calcular profundidade da lama igual pescador medindo maré. Se a obra sair, será histórica. Se não sair, vira mais um capítulo do velho seriado chamado “Socorro pede socorro”. E o sertanejo da Grande Aracaju já está cansado de viver dentro de promessa asfaltada apenas no papel.




