Prometeram um hospital completo até o fim de 2025. Em seguida, documentos técnicos apontaram abril de 2026 para concluir o setor de radioterapia, incluindo bunker, instalação e testes do acelerador linear. Chegamos a novembro, e a comunicação oficial mais detalhada, de setembro, ainda descrevia a implantação como progressiva. O governo de Sergipe precisa explicar essa sucessão de calendários. Afinal, o câncer não aceita reagendamento porque a agenda administrativa mudou. O problema não é haver etapas, mas faltar um quadro público que diga o que venceu, o que mudou e por quê.
Há outra peça nessa história: um acelerador linear de mais de R$ 10 milhões, entregue em outubro de 2025. Em abril deste ano, o Estado anunciou treinamento de três semanas para utilizá-lo. Ótimo. Mas capacitação não é sessão de radioterapia. Qual foi a data do primeiro paciente tratado nesse aparelho? Quantas sessões ele realizou até agora? Houve licenciamento e validação técnica? Qual a fila e quanto tempo se espera? O governo divulga movimentos da máquina; o contribuinte precisa conhecer seus resultados. Tecnologia parada em fotografia oficial não combate tumor.
O estudo econômico da PPP projetava disponibilidade de 100% até o fim de 2026, embora declarasse expressamente seu caráter referencial, sem força contratual. É aí que a investigação muda de patamar: qual é o cronograma obrigatório do contrato definitivo e qual órgão atesta cada entrega? O projeto também prevê pagamento condicionado à disponibilidade e ao desempenho. Portanto, não basta perguntar quanto custa a parceria; é necessário saber quais indicadores foram aferidos e se houve pagamentos antes da ativação das etapas previstas. Fiscalização não pode ser figurante num contrato dessa dimensão.
E há responsabilidade que não desaparece na assinatura: a versão alterada do edital ressalva ao Estado o fornecimento de determinadas categorias de medicamentos oncológicos, enquanto a modelagem atribui ao poder público o risco de demanda e regulação. Quem garante abastecimento, autoriza encaminhamentos e publica a fila? A Secretaria da Saúde deve divulgar, mês a mês, cirurgias, leitos efetivamente ativados, sessões de radioterapia, desabastecimentos e prazo entre diagnóstico e tratamento. O governo tem direito de apresentar avanços. A população tem direito de conferir o que eles significam. Em oncologia, a única inauguração que conta é a do cuidado no tempo certo.




