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Itabaiana: Estádio não é detalhe, é identidade

Eu não costumo gritar “gol contra” à toa. Mas quando a bola sobra limpa na pequena área e alguém isola, não dá para fingir que foi jogada ensaiada. O episódio envolvendo a Associação Olímpica de Itabaiana e o Estádio Etelvino Mendonça foi exatamente isso. Um chute errado. Para fora. Para arquibancada vazia.

Na última quinta-feira, uma portaria da Secretaria de Esportes do Estado resolveu proibir treinamentos no Mendonção. Sim, no Mendonção. A casa do Itabaiana. O lugar onde o time treina, joga, erra, acerta, cresce e conhece cada desnível do gramado como quem conhece o quintal de casa. Em estádio de interior, não existe “campo alternativo”. Existe lar. E tirar um time do seu estádio é como mandar alguém dormir fora de casa porque o sofá está em reforma. O argumento era técnico. Preservar o gramado, proteger o investimento, cuidar da obra. Tudo muito bonito no PowerPoint. Na prática, foi uma bola recuada para o próprio gol. Porque futebol não se joga só com concreto novo, joga-se com rotina, identidade e pertencimento.

E aí entra quem entendeu o jogo. O prefeito de Itabaiana, Valmir de Francisquinho, o Pato, não ficou discutindo regra em mesa de bar institucional. Leu a partida rápido. Abriu o estádio municipal, que já está em fase final, mostrou as instalações, disse “falta pouco” e ofereceu imediatamente ao Tricolor da Serra. Chute colocado, no canto. Liderança se mede assim. Quando o problema aparece, não se terceiriza o campo. Resolve-se. A repercussão foi inevitável. Até aliados do governo acharam estranho. O ex-prefeito de Frei Paulo, Anderson das Canas, foi às redes sociais dizer o óbvio. Impedir o Itabaiana de treinar beirava o absurdo. Porque beirava mesmo.

Percebendo que a jogada tinha desandado, o deputado Luciano Bispo correu para evitar que o lance virasse vexame oficial. Não encontrou o governador naquele momento e foi direto a quem tem visão de campo inteiro, não só da bola. Na Casa Civil, falou com Luiz Mitidieri. E aqui é preciso fazer justiça com letra maiúscula e sem ironia. Luiz tem uma dessas raras virtudes na política: enxerga o jogo de cima. Visão panorâmica, horizontal, de quem entende que decisão pública não pode ser tomada olhando apenas a ponta da chuteira. Em dois telefonemas, dois, ele resolveu um impasse que nem deveria ter existido. Ligou, articulou, conectou as peças e botou a bola no chão.

Talvez ajude o fato de ser botafoguense. Quem acompanha futebol sabe que o Botafogo já perdeu estádio, já ficou sem casa, já penou longe do próprio gramado. Basta dar uma olhada nas redes para lembrar qual foi o estádio que o clube perdeu e como isso desmontou o time por um bom tempo. Luiz sabe, por experiência emocional e esportiva, que time sem casa joga mal, perde referência e confiança. Não por acaso, quando o Botafogo voltou a ter chão, arquibancada e identidade, o futebol respirou. Ele sentiu isso na pele e aplicou a lição na política. Resultado: o governador Fábio Mitidieri entrou na conversa, a Secretaria de Esportes recuou e o Mendonção foi liberado. Gol de cobertura. Sem precisar de VAR, sem discurso longo e sem nota fria. Às vezes, governar bem é só isso: entender o jogo e saber em que estádio ele precisa ser jogado.

O problema é tentar vender isso como “polêmica desnecessária”. Não foi. Se houve polêmica, ela nasceu de uma portaria. Se houve barulho, foi porque alguém chutou errado primeiro. Não foi o Itabaiana. Não foi a prefeitura. Foi a Secretaria de Esportes do Estado, que lançou a bola onde não devia e depois precisou correr atrás do prejuízo.

O Mendonção não é apenas concreto, arquibancada e grama. É memória coletiva. São mais de cinquenta anos de história, de suor, de torcida, de identidade. Afastar o Itabaiana dali, ainda que temporariamente, sem diálogo prévio, foi desproporcional e míope. Futebol não é só obra pronta. É processo vivo.

No fim, tudo foi resolvido. O Itabaiana volta a treinar no Mendonção com tranquilidade. Tem, inclusive, uma segunda opção, graças à postura firme do prefeito Valmir de Francisquinho, que mostrou que quando o Estado chuta para fora, o município pode muito bem chutar para dentro.

Mas que fique o aprendizado. Estádio em reforma não pode virar estádio interditado por decisão burocrática sem sensibilidade esportiva. Porque campo não é só espaço físico. É identidade. E mexer nisso sem cuidado é pedir vaia da arquibancada inteira. Dessa vez, o gol saiu. Mas foi depois de uma defesa atrapalhada, um passe errado e um quase vexame. Que na próxima rodada, o bom senso entre em campo desde o apito inicial.

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