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Janja coreana: seda em Seul, aperto no bolso do brasileiro

Enquanto o Brasil aqui discute inflação, segurança e tarifa internacional, lá em Seul a pauta foi seda, laço e fotografia oficial. A primeira-dama vestiu hanbok, sorriu para as câmeras e mergulhou na cultura sul-coreana como turista premium em pacote cinco estrelas. Nada contra a tradição coreana, que é belíssima. O problema é a tradição brasileira de fingir que está tudo bem enquanto a conta chega em real e o salário continua em modo econômico. O governo parece aquele amigo que troca a capa do celular enquanto o cartão estoura.

O presidente foi brindar amizade operária com o líder sul-coreano, discurso bonito, história de superação, coral infantil cantando Bob Marley versão diplomática. Tudo cinematográfico. Enquanto isso, por aqui, o brasileiro canta “No Woman No Cry” na fila do supermercado. A diplomacia é importante, claro. Mas talvez fosse interessante equilibrar o figurino internacional com um pouco mais de performance doméstica. Porque política externa elegante não substitui política interna eficiente.

E falando em performance, o mundo gira e a agenda também. Nos Estados Unidos, Donald Trump organiza encontro com líderes latino-americanos alinhados ideologicamente e o Brasil fica fora da lista. A diplomacia brasileira aposta no diálogo futuro, na conversa que virá, na reunião que talvez aconteça. É quase um relacionamento à distância: “a gente conversa depois”. Enquanto isso, os outros já estão sentados à mesa.

O governo federal tenta vender normalidade estratégica, diz que tarifas podem até beneficiar o país, que investigações serão esclarecidas, que o Pix é exemplo global. O discurso é otimista, quase motivacional. Só que mercado não vive de frase de efeito. Vive de previsibilidade. E previsibilidade não combina com improviso internacional. Parece roteiro de comédia onde o protagonista acredita que está dominando a cena, mas o roteiro já mudou duas páginas atrás.

No final, sobra a imagem. Hanbok impecável, banquete impecável, foto impecável. Só que política não é ensaio fotográfico. É resultado. O Brasil precisa menos de figurino exótico e mais de estratégia sólida. Porque diplomacia é importante, mas governar é prioridade. E enquanto o governo posa bem lá fora, o eleitor aqui dentro começa a perguntar se não estamos investindo demais na estética e de menos na substância. E eleitor, diferente de fotógrafo oficial, não aplaude figurino. Ele cobra desempenho.

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