Katarina Feitoza entrou nos últimos dias em modo campanha: sirene ligada, giroflex aceso e frase de efeito no coldre. A deputada federal, pré-candidata natural à reeleição, tem trabalho para mostrar, emendas liberadas, presença em pautas sociais e discurso forte na segurança. Mas, em política, não basta ligar a viatura. Tem que saber dirigir na curva. Ao tentar usar o IPS de Aracaju como vitrine contra Emília Corrêa, Katarina fez uma ultrapassagem perigosa. Daquelas em que o eleitor olha e pensa: calma, deputada, a pista é dupla, mas o retrovisor está funcionando.
É justo reconhecer: Katarina não está dormindo no mandato. Destinou recursos, apareceu em municípios, abraçou pautas sociais e votou em temas populares, como o fim da escala 6×1. Isso ajuda a montar a imagem de deputada que trabalha e não aparece só em ano eleitoral com sorriso plastificado de santinho novo. O problema é que entrega política não autoriza erro estratégico. E Katarina, ao misturar dado técnico com palanque, correu o risco de transformar uma boa munição em tiro no próprio sapato.
O tropeço começa quando ela sobe no púlpito do “eu não minto”. Frase bonita, forte, com cheiro de corte viral. Mas também é uma armadilha de luxo. Quem diz que não mente precisa falar com precisão de perito, não com entusiasmo de oposição em dia de microfone aberto. Katarina criticou a Prefeitura por maquiar a realidade do IPS com manchetes positivas. A frase é boa, tem veneno e rende aplauso. Só que, quando alguém aponta a maquiagem dos outros, sempre aparece quem pergunte: e quem passou o pó compacto no governo anterior?
Aí está o problema. Katarina não chegou ontem de Marte, nem pousou em Aracaju com capacete de astronauta. Foi vice-prefeita, circulou no centro do poder e fez parte do grupo que ajudou a construir a fotografia que agora ela tenta usar como denúncia. Se Aracaju patina em educação, inclusão, meio ambiente ou segurança pessoal, a pergunta é simples e cruel: onde estava essa indignação quando o problema estava sendo cozinhado no fogão da própria cozinha política? Memória, em política, é pior que oposição: ela não grita, mas aparece com recibo.
No fim, Katarina ganhou visibilidade, mas perdeu controle da narrativa. Trabalha, entrega e tem força para disputar a reeleição. Mas precisa de uma assessoria menos apaixonada por barulho e mais íntima da estratégia. Nem todo microfone é delegacia. Nem todo dado é flagrante. Nem toda crítica precisa virar boletim de ocorrência eleitoral. Katarina tem munição, presença e mandato. Falta calibrar a mira. Porque, dessa vez, tentou mirar em Emília, mas quase carimbou a própria digital no inquérito político.




