Em um momento em que os municípios brasileiros lutam para atrair investimentos, gerar empregos e manter suas contas públicas em ordem, Lagarto caminha na contramão. Aparece, mais uma vez, como símbolo do que acontece quando a administração pública se transforma em extensão da vaidade pessoal de um gestor. A recente inclusão de Lagarto na lista do Tesouro Nacional de entes com repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) bloqueados é apenas a ponta do iceberg de um modelo administrativo falido, desorganizado e conflituoso.
O FPM é a principal fonte de receita de milhares de municípios. Sua suspensão implica em paralisia de serviços básicos como saúde, educação e infraestrutura. O bloqueio, que ocorre quando o município está inadimplente com obrigações federais, seja com o INSS, Receita Federal ou Procuradoria da Fazenda Nacional, não é algo que acontece de surpresa. Ele é o resultado direto da falta de planejamento, da negligência fiscal e do desprezo pela responsabilidade administrativa. É o Tesouro cortando a mesada porque a casa está em desordem. E essa casa, neste caso, é gerida por quem trata a Prefeitura como trincheira de guerra pessoal, e não como instrumento de transformação social.
A má gestão financeira, porém, é apenas um dos sintomas do que Lagarto tem sofrido. O caso mais grave e mais escandaloso é a perda de um dos maiores investimentos privados da história do município. Estamos falando da transferência da nova fábrica de biscoitos do grupo JAV/Maratá, avaliada em aproximadamente R$ 400 milhões, que geraria mais de 3.400 empregos diretos e indiretos. Um projeto que tinha endereço certo, mas foi parar na cidade de Pilar, em Alagoas, por um único motivo: birra política.
O motivo da perda é tão estarrecedor quanto revoltante. A relação conflituosa entre o prefeito Sérgio Reis e o empresário José Augusto Vieira, presidente do grupo JAV/Maratá, é antiga e pública. O prefeito decidiu colocar suas desavenças pessoais acima dos interesses coletivos da cidade. O grupo empresarial, que representa uma das maiores potências industriais do Nordeste, com atuação consolidada em logística, bebidas, agricultura e alimentos, teve portas fechadas em Lagarto. Enquanto Alagoas abre os braços para o desenvolvimento, Lagarto fecha os punhos num ringue de brigas particulares.
Não foi só a fábrica que Lagarto perdeu. O prédio da antiga FJAV, onde já deveria estar funcionando o Centro Administrativo do Município, continua abandonado porque o prefeito se recusa a usar um imóvel ligado ao grupo. O projeto de um shopping popular no antigo terreno da Exposição, que poderia gerar 1.500 empregos, também foi enterrado pela mesquinhez institucional. Tudo isso somado escancara um padrão de comportamento: não importa o tamanho do benefício para a cidade, se o nome do investidor não agrada ao prefeito, o projeto morre.
É nesse mesmo cenário que o FPM é bloqueado. É como se a cidade estivesse gritando por socorro, e a gestão se recusasse a ouvir. A incompetência fiscal, somada ao boicote sistemático ao desenvolvimento, constrói uma realidade perversa: Lagarto empobrece não por falta de oportunidade, mas por rejeitar, sistematicamente, as oportunidades que batem à sua porta.
Uma cidade não pode ser refém de rancores pessoais. Prefeito não foi eleito para fazer vingança, mas para construir pontes. E Lagarto está pagando caro por ter, hoje, um gestor que prefere muros. Enquanto isso, o povo, mais uma vez, assiste à decadência de um município que poderia ser protagonista regional, mas que opta por ser figurante da sua própria ruína.
Quando um gestor troca R$ 400 milhões em investimentos por vaidade, quando prefere ver prédios abandonados a admitir parceria, quando aceita perder milhares de empregos para manter uma disputa pessoal, ele não governa, ele sabota. E isso não é política. Isso é deslealdade com o povo.




