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Medicina sobrando e estudante sumindo

Durante décadas, entrar em medicina no Brasil era quase uma missão impossível. Era cursinho de madrugada, pilha de apostila, café frio e sonho quente. Quem passava era tratado como herói da família. Pois agora surge uma notícia que parece piada pronta da realidade brasileira. Em várias universidades federais, vagas de medicina estão sobrando na primeira chamada do Sisu. Isso mesmo, o curso mais disputado do país começou a ter cadeira vazia esperando candidato.

Na UFRJ, quase metade das vagas de medicina foi parar na lista de espera logo na primeira chamada. Na UFMG, mais de cem vagas também migraram para reclassificação. Algo que, até poucos anos atrás, seria considerado impossível. Medicina sempre foi o Olimpo do vestibular brasileiro, a porta estreita pela qual passavam apenas os melhores colocados do Enem. Agora o cenário parece outro. Tem vaga aberta e candidato olhando para o lado, pensando se vale a pena mudar de cidade, pagar aluguel caro e virar interno de hospital pelos próximos anos.

Parte da explicação está na mudança do próprio sistema. O Sisu passou a permitir o uso da melhor nota entre três edições do Enem. Resultado, muita gente resolveu brincar de vestibular estratégico. Inscreve-se para testar a nota, ver se passa, medir o próprio desempenho. Alguns entram, mas não fazem matrícula. Outros usam o resultado como quem joga videogame acadêmico. Passa na medicina, tira print da tela, comemora no grupo da família e depois decide ficar onde já está.

Só que existe também outro fenômeno acontecendo no Brasil. Nos últimos anos houve uma explosão de cursos de medicina, principalmente na rede privada. De norte a sul do país surgiram faculdades oferecendo vagas, muitas delas com mensalidades que parecem financiamento de apartamento. O resultado é simples. A oferta aumentou, o número de vagas cresceu e aquele funil apertado começou a se alargar. Aquilo que antes era raridade virou um mercado muito mais amplo.

Isso não significa que medicina perdeu importância ou prestígio. Longe disso. Significa que o sistema educacional brasileiro está mudando rapidamente e, como sempre acontece por aqui, sem planejamento perfeito. Enquanto universidades tentam entender por que as vagas estão rodando na lista de espera, uma coisa já ficou clara. O vestibular mais temido do país entrou em uma nova fase. E o velho mito de que ninguém jamais deixaria uma vaga de medicina escapar começa, lentamente, a virar história de vestibular antigo.

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