O Hospital da Criança Dr. José Machado de Souza, em Aracaju, virou palco de um escândalo em setembro de 2025. Nada menos que 54 médicos pediram demissão de uma só vez, jogando luz sobre um esquema de contratos suspeitos, terceirizações nebulosas e ameaças veladas que colocam em xeque a gestão da saúde pública em Sergipe.
A unidade, referência para bebês e crianças até 12 anos, está sob a batuta da Irmandade Boituva de Saúde e Educação, entidade escolhida pelo governo estadual em julho. No papel, a organização venceu um chamamento público com a “maior pontuação técnica”. Na prática, mergulhou o hospital em uma crise sem precedentes.
Contratos estranhos e empresa fantas
O Sindicato dos Médicos de Sergipe (Sindimed) levantou o que já parecia óbvio: a terceirização virou terreno fértil para contratos obscuros. A Centro Cardio Serviços Hospitalares, empresa contratada para gerir os vínculos dos médicos, apresentou endereços que dariam vergonha até em picaretagem de filme B.
- O primeiro endereço era uma loja de frutos do mar em São Paulo.
- O segundo? Um escritório virtual de contabilidade.
- Para completar, dois CNPJs diferentes ligados a locais sem qualquer vínculo hospitalar.
E o detalhe mais saboroso: a empresa não consta como ativa no Conselho Regional de Medicina de São Paulo.
Sociedade em Conta de Participação: a jogada jurídica da discórdia
Os médicos foram pressionados a assinar contratos no formato de Sociedade em Conta de Participação (SCP), um modelo usado em negócios privados, mas absolutamente inadequado para vínculos trabalhistas em saúde.
Resultado? Pagamentos via Pix direto em contas pessoais, zero encargos trabalhistas e uma bomba jurídica pronta para estourar no colo dos profissionais. Advogados consultados foram categóricos: ilegal.
Pressão, ameaças e clima de terror
Se a história já não estivesse grotesca o suficiente, um certo Carlos Alexandre Mendes apareceu em reunião com os médicos e, em nome da Irmandade Boituva, deixou claro: quem não assinasse seria substituído às pressas por profissionais de fora do estado.
Ou seja: a gestão não apenas terceirizou contratos obscuros, mas também tentou impor o modelo sob ameaça. O resultado não poderia ser outro — 54 pediatras entregaram os cargos.
Histórico da Irmandade Boituva: ficha nada limpa
O currículo da entidade responsável pelo hospital também não ajuda. Em agosto, um mês antes de assumir em Sergipe, a Irmandade foi reprovada em Diadema (SP) por “falta de capacidade técnica”. Além disso, já recebeu notificação do CRESS-SE por descumprir carga horária de assistentes sociais.
Mesmo assim, em Sergipe, venceu o chamamento público e hoje comanda um hospital infantil que ameaça ficar sem pediatras.
Governo lava as mãos, MP investiga
A Secretaria de Estado da Saúde diz ter notificado a Irmandade Boituva, mas empurra a responsabilidade da contratação para a própria organização social. Já o Ministério Público Estadual abriu investigação após denúncia protocolada pelo Sindimed.
No campo político, a crise ganhou eco: a deputada Linda Brasil (PSOL) levou o caso à Assembleia Legislativa, enquanto o vereador Iran Barbosa (PSOL) cobra rigor nas apurações.
O que está em jogo
A Irmandade Boituva jura que vai repor os médicos “automaticamente” para garantir atendimento. Mas alguém realmente acredita que substituir mais de 50 especialistas de uma vez não compromete o serviço?
O Hospital da Criança, referência em pediatria, virou exemplo de como a terceirização sem controle abre brechas para contratos duvidosos, pressão sobre profissionais e risco direto à população mais vulnerável: as crianças.
E a pergunta que não quer calar: se a própria empresa já havia sido considerada incapaz em São Paulo, quem, em Sergipe, achou uma boa ideia entregá-la a gestão de um hospital infantil?
E você, acredita que a saúde pública pode continuar entregue a Organizações Sociais com esse histórico? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe essa matéria.
Fontes principais
G1, Infonet, Sindimed-SE, FanF1, CRESS-SE




