PUBLICIDADE

Mérito não é preconceito. É critério.

Gente, hoje me acordei um pouco mais tarde. Culpa direta de uma confraternização de escritório, duas ou três taças de vinho a mais e aquela sensação clássica de quem defendeu grandes teses depois do terceiro brinde. Acordei daquele jeito que Oswaldo Montenegro definiu melhor do que qualquer manual de autoajuda: “… hoje acordei tão só, mais só do que merecia…”. Sem pressa, na minha casa de praia, coloquei os fones e fui caminhar na areia, como faço religiosamente. Corpo em movimento, mente solta, mar do lado, vento na cara e zero intenção de me estressar. Até que o algoritmo, como sempre, resolveu trabalhar sem ser convidado.

No meio da caminhada, surge a manchete: a Microsoft decidiu dissolver o time de diversidade e inclusão e avisou, sem rodeio, que vai contratar por mérito e competência. Pronto. Parei. Tirei o fone. Olhei pro mar. Olhei pra mim. Pensei: isso aqui eu já vi antes. Não em Redmond, mas em Aracaju.

Antes que alguém tenha um surto coletivo no Twitter e liguem para Faustinho reclamando, vamos botar ordem na casa, como a gente faz em Sergipe quando a conversa começa a sair do trilho. A Microsoft não proibiu diversidade, não expulsou ninguém, não decretou volta ao século passado. Ela fez algo muito mais simples e muito mais indigesto para alguns: disse que o critério é meritocracia. Entrega. Competência. Capacidade real de resolver problema. Nada de currículo emocional nem planilha de virtude corporativa.

E aqui Sergipe entende bem esse fenômeno. A tal ditadura das minorias funciona por aqui como reunião de condomínio onde meia dúzia fala alto, ocupa a pauta inteira, se diz representante de todos e ainda sai ofendida se alguém ousar pedir resultado. Cria-se um sistema de suplementação simbólica: cargos, espaços, discursos e proteções extras para compensar tudo, menos a falta de entrega.

Na prática, vira aquele cenário conhecido. Gente blindada por discurso, não por desempenho. Gente que não pode ser avaliada, não pode ser cobrada e não pode ser contrariada. E quem trabalha quieto, entrega e resolve fica com cara de besta, pagando a conta e ouvindo palestra.

Foi isso que aconteceu em muitas empresas, universidades, repartições e projetos culturais por aqui. E foi isso que começou a acontecer dentro das big techs. Diversidade virou departamento. Inclusão virou KPI. Equidade virou slide bonito de PowerPoint. Tudo muito bonito para foto institucional, tudo muito frágil na prática. Em vez de misturar, separa. Em vez de integrar, classifica. Em vez de exigir excelência, cria grupos intocáveis.

Meritocracia, ao contrário do que tentaram vender, não é crueldade. É regra básica de convivência. Em Sergipe a gente diria assim: quem sabe fazer, faz. Quem não sabe, aprende. E quem não quer aprender, não pode exigir privilégio. Meritocracia não quer saber de rótulo, quer saber se a pessoa resolve. Não embala ego, testa competência. Não protege, desafia. E isso incomoda profundamente quem se acostumou a sobreviver mais no discurso do que na entrega.

A Microsoft fez o que muita empresa sergipana pensa, mas não tem coragem de assumir publicamente. Em 2020, sob pressão social e clima internacional, todo mundo correu pra montar comitê, selo, manifesto e foto coletiva cuidadosamente diversa. Em 2025, com mercado apertado, concorrência feroz e acionista perguntando pelo resultado, a conversa mudou. O negócio precisa funcionar. Simples assim.

Empresa não é ONG emocional. Empresa existe pra entregar produto, serviço, inovação e lucro. Se no caminho inclui pessoas diferentes, ótimo. Mas incluir não pode virar sinônimo de baixar régua, aliviar cobrança ou blindar incompetência. Isso não é justiça social. Isso é sabotagem elegante.

Enquanto eu caminhava na praia, pensei em quantos ambientes em Sergipe viraram lugares onde o medo de desagradar supera a vontade de acertar. Onde mérito virou palavrão, excelência virou arrogância e cobrança virou opressão. Onde a régua muda conforme o discurso do dia.

A Microsoft foi lá e disse chega. Vamos contratar gente boa. Ponto. Isso não é retrocesso. É retorno ao básico. Igualdade não é tratar todo mundo diferente. É tratar todo mundo com o mesmo critério.

Terminei a caminhada com aquela sensação rara de quem lê uma notícia e não sente vontade de xingar ninguém. Só sorri. Porque, no fundo, o mundo corporativo está reaprendendo uma lição antiga que Sergipe já conhece bem: diversidade sem competência é discurso. Competência com diversidade é resultado. E mérito, no fim das contas, não exclui ninguém. Só não passa pano. Agora, com licença, vou ali pegar um café forte. Porque esse debate ainda vai render mais do que vinho em confraternização.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *