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Mestrinho: O Sanfoneiro que Levou a Cultura do Nordeste para o Palco Mundial

Sergipano de Itabaiana conquista seu segundo Grammy Latino e consolida legado de excelência musical

Mestrinho é muito mais do que um sanfoneiro de talento excepcional. Ele é a encarnação viva da fusão entre tradição e reinvenção — e, diga-se, um símbolo de resistência cultural em um país que frequentemente esquece de onde veio. Seu nome de batismo é Erivaldo Júnior Alves de Oliveira, mas o apelido que carrega é um manifesto: ele honra os mestres, mas pavimenta seu próprio caminho.

Um Destino Musical Escrito Desde o Berço

Nascido em Itabaiana, Sergipe, em 1988, Mestrinho não precisou escolher a música — ela já estava nele. O avô, Manezinho do Carira, dominava a sanfona de oito baixos. O pai, Erivaldo de Carira, deu continuidade ao legado. A mãe, Dona Dina, batizou o filho com um nome artístico que virou assinatura de qualidade.

Com cinco anos, já tinha uma sanfona nas mãos. Aos seis, tocava “Asa Branca”. E nem adianta dizer que foi precoce: ele era inevitável. Cresceu ouvindo Dominguinhos, Sivuca, Oswaldinho, Luiz Gonzaga — mas também Hermeto Pascoal, Pixinguinha, Gilberto Gil e Milton Nascimento. O repertório era vasto porque o talento também era.

Aos onze anos, já fazia testes para bandas profissionais. Aos doze, saía em turnê. E ninguém segurava mais.

De Aracaju para São Paulo: A Escolha que Mudou Tudo

Aos 17, largou tudo em Aracaju e partiu pra São Paulo com a irmã, Thaís Nogueira, pra viver de música. Formaram o Trio Juriti com o percussionista Scurinho. Começaram do zero: tocaram de graça em feiras, dormiram em casa de amigos, suaram cada centavo até gravar seus dois primeiros discos. Um deles, aliás, foi produzido por João Silva, parceiro de Luiz Gonzaga. Apadrinhamento de peso.

O Chamado de Dominguinhos

E aí veio o divisor de águas: Dominguinhos o convidou pra tocar em alguns shows. Depois virou fixo na banda. Dividiu palco, estrada e história com o mestre. Participou da última apresentação do sanfoneiro em Exu, Pernambuco — cidade natal de Gonzaga. Mestrinho diz que a relação era espiritual. E a gente acredita. Afinal, não é qualquer um que recebe essa benção.

Solo, Mas Nunca Sozinho

Com a visibilidade e a experiência adquiridas, Mestrinho começou a trilhar carreira solo. Lançou “Opinião” em 2014, com participações de Gilberto Gil e Thaís Nogueira. Depois veio “É Tempo pra Viver” (2017), com Ivete Sangalo e Dominguinhos. O cara não para.

Também passou pelos palcos de Elba Ramalho, Gilberto Gil, Toninho Ferragutti, e levou sua sanfona pro mundo: Israel, Europa, América Latina. Acordeon virou passaporte.

Rock in Rio: A Consagração da “Bichona”

Em 2024, Mestrinho cravou seu nome na história: foi o primeiro sanfoneiro a fazer um show solo no Rock in Rio. Isso mesmo. A “bichona”, como ele carinhosamente chama a sanfona, subiu no palco mundial e fez o que guitarras distorcidas e sintetizadores eletrônicos muitas vezes não conseguem: arrepiou.

Era zabumba, triângulo, pandeiro, e a sanfona comandando tudo. Um show de afirmação cultural. Um chute na porta do preconceito musical.

“Dominguinho”: Quando a Homenagem Vira Grammy

Em abril de 2025, ao lado de João Gomes e Jota.pê, Mestrinho gravou o disco “Dominguinho”. O projeto nasceu de forma improvisada — grupo no WhatsApp, arquivos trocados, gravação marcada no Sítio Histórico de Olinda.

O resultado foi um álbum de 12 faixas que misturam clássicos e inéditas, incluindo uma versão forrozeira de “Pontes Indestrutíveis” (Charlie Brown Jr.) e a emocionante “Flor de Flamboyant”, em tributo a Kara Véia. Tudo isso com arranjos criados na hora, memórias desenterradas e muita espontaneidade.

O disco virou barulho. E que barulho bom.

Grammy Latino 2025: A Segunda Coroa

Na 26ª edição do Latin Grammy Awards, em Las Vegas, o álbum “Dominguinho” venceu na categoria Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa. Concorria com nomes de peso. Mas a vitória não era só artística: era simbólica. Era o Nordeste gritando “presente!” num dos palcos mais elitizados da música global.

João Gomes falou das raízes. Jota.pê agradeceu o encontro. Mestrinho resumiu: “Esse disco é nada mais, nada menos que o encontro de três amigos que vibram a música… que têm muito amor pelo que fazem”. Foi bonito. Foi justo.

E sim, foi o segundo Grammy de Mestrinho. O primeiro veio em 2024, ao lado de Mariana Aydar, com o disco “Mariana e Mestrinho”.

O Nordeste Que Enche Plateias

O sucesso foi tão absurdo que os ingressos para os primeiros shows do trio esgotaram em 11 minutos. Tiveram que abrir novas datas em São Paulo e no Rio. E agora vem mais: uma turnê europeia começa em março de 2026, passando por Bruxelas, Amsterdam, Paris, Barcelona, Madrid, Zurique e Genebra.

A expectativa? Um “Dominguinho 2” já está em discussão. Com novas colaborações. Com mais Nordeste. Com mais verdade.

O Legado Está Escrito em Dó Maior

Mestrinho não é um artista de nicho. Ele é a prova de que a sanfona não é peça de museu — é motor de revolução estética. Ele não é apenas orgulho de Sergipe. É símbolo do que o Brasil tem de mais potente: sua cultura popular.

Ele não subiu nos palcos internacionais sozinho. Levou com ele os ecos das festas juninas, os acordes dos forrós de interior, os gritos de alegria das quermesses. Levou Luiz Gonzaga, Dominguinhos, e todo um Nordeste que insiste em ser ouvido — e agora, finalmente, está sendo.


E você? Já ouviu Mestrinho? Já dançou um forrozinho ao som da “bichona”? Comenta aí, compartilha essa matéria e ajuda essa história a chegar onde ela merece: no ouvido de todo mundo.


Fontes

  • A8SE
  • G1 Globo
  • Infonet
  • Revista Continente
  • Billboard Brasil

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