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Entre Djavan e Natanzinho: quando a música trocou poesia por paredão

Na última semana, troquei os fogos do São João por um giro bem temperado pelo sudeste e sul do país, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e até o interior do Paraná, onde o frio é cultural e literal. Mas eu não fui atrás só de agenda e cafezinho em aeroporto. Fui em busca de algo em extinção: a alma da arte brasileira. E encontrei. Em São Paulo, assisti ao musical de Tom Jobim, um espetáculo que veste o espírito como um terno de linho sob medida. Dias depois, no Rio, no musical Djavan um espetáculo como quem costura emoção em silêncio: me desmontou. Foi ali, entre uma lágrima e outra, que a ficha caiu com a força de um acorde bem feito: a música brasileira, a que tem verbo, violão e verdade, está sendo engolida pela espuma do entretenimento fácil. E o pior: a gente já sabia. Só estava empurrando com glitter.

Sim, estamos em pleno São João, época em que o Nordeste vira coração batendo em zabumba e eu sou sergipana nata. E como boa forrozeira, não troco um xote bem tocado por nenhum beat importado. Amo o forró raiz, o baião de sanfona esticada, o pandeiro suado, o salão cheio e o arrasta-pé que começa com Dominguinhos e termina com Elba passando por Luiz Gonzaga, Marluce do Forró e a saudade boa da cultura vivida. Mas, entre um passo e outro, me pego num lugar incômodo, o de quem não apenas dança, mas observa. Como mulher madura, jornalista, psicólogacalejada e ouvinte de ouvido absoluto para letras e contextos, me sinto no dever ético de perguntar com firmeza e sem filtro: o que, afinal, estamos consumindo como música? E, pior ainda, a quem estamos batendo palma? Porque entre a batida que pulsa e a que apenas empurra, existe uma diferença que não pode ser ignorada.

Hoje, enquanto Djavan sussurrava nos meus fones com elegância oriental : “Mesmo por toda riqueza dos sheiks árabes, não te esquecerei um dia”, meu feed do Instagram despejava uma coreografia coletiva ao som de “Mexe a bundinha, faz dedinho na boquinha…”. Era como ouvir um soneto e, ao mesmo tempo, levar um empurrão de paredão. O contraste é brutal. Lírico, melódico, cultural  e, sobretudo, gritante. De um lado, poesia que atravessa gerações. Do outro, frases de efeito embaladas para o consumo imediato, como fast-food auditivo. A música que fazia pensar foi substituída pela que só faz vibrar. E não necessariamente no melhor sentido.

Djavan não se escuta de passagem, ele exige presença. Sua música não bate na porta, ela entra pela janela da alma, sem pedir licença. Suas palavras, mesmo as mais simples, não chegam nuas: vêm vestidas de metáforas que dançam com acordes como se flertassem com o infinito. Não é música para entender, é para sentir, absorver, respirar. Seu repertório não cabe num reels apressado de 15 segundos. É feito para rede de varanda, brisa no rosto e silêncio atento. Porque com Djavan, até o intervalo entre as notas tem significado.

Quem, com um mínimo de sensibilidade ou sequer um resquício de alma exposta , não se arrepia ao ouvir: “Teu olhar não me diz exato quem tu és, mesmo assim eu te devoro”? Ou ainda: “Espero com a força do pensamento recriar a luz que me trará você”? Isso não é apenas música. É arquitetura emocional. É verso que levanta paredes de afeto dentro da gente. Djavan não canta para entreter, ele edifica. Ele eleva. São canções que se podem passar de mãe para filha sem nenhum constrangimento, sem pedir desculpas, sem precisar de legenda. Não precisam de filtro. Precisam de fôlego e de silêncio depois.

Do outro lado da pista, literalmente, está Natanzinho Lima: jovem, carismático, esforçado, dono de um sucesso legítimo. Conquistou seu espaço, arrasta multidões, domina plataformas digitais. Não há demérito nisso. Mas é preciso separar carisma de conteúdo, palco de profundidade. Essa não é uma crítica pessoal,  é uma análise estética. E, mais do que isso, é um alerta cultural. Porque quando a forma grita mais alto que a essência, o aplauso pode estar disfarçando o vazio.

Natanzinho canta para o agora, para o paredão ligado no talo, o copo de plástico na mão e o celular tremendo de gravação. Suas letras são curtas, repetitivas e rasteiras, com um vocabulário que caberia inteiro num story patrocinado de 15 segundos. Frases como “’curtindo com as barbiezinha ou “Valeu a pena te deixar” até cumprem seu papel: animam, viralizam, fazem dancinha. Mas não sobrevivem a uma madrugada em silêncio, a um fone de ouvido e a um coração pensante. São músicas de efeito instantâneo, como emoji de foguinho que brilha e some na próxima notificação.

Onde foi parar a essência? Sério, alguém viu por aí? Porque eu juro que piscamos e a poesia evaporou. A pergunta que deixo (e que me cutuca como notificação às três da manhã) é: quando foi que trocamos metáforas por bordões, partituras por loops prontos, e lirismo por letra de camiseta de TikTok? A música brasileira não precisa ser um tratado filosófico mas, convenhamos, ela já foi espelho de um país inteiro tentando se entender. Hoje virou reflexo do feed: rápida, bonita, esquecível. Tom Jobim compunha como quem decanta vinho. Djavan escreve como quem borda renda num terreiro. E Natanzinho… bom, Natanzinho compõe como quem grava um áudio no carro dizendo “passo aí em cinco minutos, segura o copo”. É o hit do momento, mas é também o vácuo do pensamento. A batida pode até ser boa, mas quando o silêncio chega, cadê a letra pra sustentar?

Isso não é saudosismo. É senso de responsabilidade cultural. Sou de uma geração que ouviu Gal cantar “Vapor Barato” e sentiu o peito arder. Que viu Caetano provocar o mundo com um simples “É proibido proibir”. Que parou pra ouvir Gil dizer “andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá, e entendeu o Brasil por dentro. Sou da era em que Milton nos lembrava que “qualquer maneira de amor vale a pena”, e Chico Buarque nos ensinava a resistir em versos como “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”.

A arte era instrumento, era incêndio, era oração que queimava devagar. Hoje, virou selfie apressada. Um ‘sorria’ seguido de ‘próximo story’. A estética trocou o silêncio reflexivo pela pressa do clique. Os versos viraram legenda, e o sentido ficou na legenda oculta. Oswaldo Montenegro cantava “metade de mim é amor, e a outra metade também”. Ney Matogrosso? Ney é um ato político com glitter. A gente veio da pólvora poética e agora aplaude isqueiro digital. A culpa não é da geração. É do que estamos servindo como cardápio cultural.

Vamos ser honestos: Natanzinho pode até embalar o churrasco de sábado, mas sua discografia parece um roteiro de date genérico no aplicativo. Em “Solteiro bem de vida”, ele canta com orgulho: curtindo com as barbiezinha Em “Pilantra e Meio”, lamenta: “É que você gosta de outras coisas, tipo paredão batendo, tipo a vida louca”
E em “Uma e Quinze da Manhã”, resume o drama com um misto de GPS e carência:  passando na sua rua, vê se me procura…”

São letras que se repetem como figurinha de WhatsApp, muda o nome, mas a mensagem é sempre: “larguei, bebi, peguei, sumi.” O problema não está no ritmo, nem no piseiro que tem sua força cultural e popular. O problema é quando transformamos o raso em referência, e passamos a chamar qualquer refrão com rima fácil de “hit” só porque viralizou. O que era pra ser trilha sonora virou notificação sonora: toca, vibra, apaga. E no dia seguinte, ninguém lembra se era música ou meme com batida.

E que fique claro, com todas as letras e todos os acordes: não sou contra a música animada, o paredão estralando ou o copo de plástico erguido em coro. Que viva o forró, o piseiro, o pagodão e até a sofrência bem cantada, desde que venha com alma, não só com algoritmo. O que eu peço  e confesso, quase imploro, é que a música volte a dizer alguma coisa. Que volte a nos emocionar, a nos dar o que pensar no caminho de volta pra casa. Porque, como diz Djavan, com a leveza que só os grandes carregam: “Não há nada, em lugar nenhum, que vá crescer sem você chegar.” E se a poesia não chegar, se a letra continuar sendo só legenda de story com coreografia pronta, a alma da nossa cultura vai seguir murchando, abafada pelo grave dos paredões e o eco do vazio. Com amor, escuta e um toque de saudade.

Bia Muniz

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