O governo federal resolveu tratar a dívida pública como se fosse tradição de São João em Sergipe: cresce todo ano, passa de governo pra governo, sobrevive a qualquer discurso animado e ainda ganha explicação bonita em slide, dessas cheias de gráfico colorido que não paga conta de ninguém. Em 2025, a dívida bruta fechou em 78,7% do PIB, subindo mais 2,4 pontos percentuais no ano e alcançando a elegante marca de R$ 10 trilhões. Um número tão grande que já não cabe mais no bolso do contribuinte, mas segue muito confortável nas planilhas de Brasília. É o terceiro ano seguido de alta, somando cerca de 7 pontos percentuais desde o início do atual governo. A dívida cresce, o discurso muda, mas a conta continua a mesma: sempre sobra para quem paga imposto.
O governo tenta vender a narrativa de que está tudo sob controle, que a meta fiscal foi “cumprida” e que o déficit primário de R$ 55 bilhões é quase uma virtude, já que ficou dentro da margem de tolerância. Margem, aliás, cada vez mais elástica. O saldo zero virou saldo negativo aceitável, desde que bem justificado e devidamente retirado da conta oficial. Parte das despesas fica fora do arcabouço, outra parte fora da meta, e assim o orçamento vai sendo maquiado com a delicadeza de quem varre a sujeira para debaixo do tapete institucional. Enquanto isso, os juros consumiram mais de R$ 1 trilhão em 2025. Um trilhão. Dinheiro suficiente para resolver problemas históricos do país, mas que evapora no ar da Selic a 15% ao ano, alimentando exatamente a dívida que o governo diz combater.
Se a dívida já assusta, o capítulo das estatais merece trilha sonora de suspense. Em 2025, elas fecharam com déficit de R$ 5,87 bilhões, o segundo pior resultado da série histórica. Só perderam para o próprio governo no ano anterior, quando o rombo chegou a R$ 8 bilhões. As empresas federais puxaram o prejuízo com R$ 5,1 bilhões negativos, enquanto estados e municípios contribuíram com déficits menores, mas igualmente constrangedores. A explicação oficial é quase poética: déficit não significa problema financeiro, o importante é saber se a empresa dá lucro ou prejuízo. Um raciocínio que só funciona em Brasília, onde gastar mais do que arrecada parece ser sinal de virtude social.
O caso dos Correios é exemplar. A estatal só não afundou ainda mais porque um empréstimo bilionário chegou tarde demais para pagar as contas do ano. Não é que o rombo não existisse. Ele só ficou para depois, como boletim de escola que os pais preferem abrir no fim de semana. Para evitar o estouro da meta das estatais, o governo congelou R$ 3 bilhões do Orçamento Fiscal, ou seja, tirou dinheiro de políticas públicas para tapar buraco de gestão. E para 2026, a previsão já nasce generosa: um déficit autorizado que pode chegar a R$ 21,75 bilhões, se considerados os espaços extras criados para acomodar despesas. Na prática, é o rombo com CPF liberado.
O quadro geral é de um Estado pesado, caro e viciado em déficits, sustentado por uma máquina que arrecada muito, gasta mal e explica pior ainda. Enquanto investidores observam com preocupação a trajetória da dívida, o governo segue apostando na retórica de que tudo é conjuntural, passageiro e herdado. O problema é que a herança já virou tradição. A dívida cresce, as estatais sangram, os juros explodem e a solução apresentada é sempre a mesma: mais imposto, mais tolerância fiscal e mais paciência do contribuinte. No fim, a economia real sente, o mercado desconfia e o cidadão paga. O Brasil não vive uma crise de números. Vive uma crise de escolhas. E, até agora, o governo federal parece escolher sempre o caminho mais caro, mais ineficiente e mais difícil de sustentar.




