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O matadouro ocupa o rádio, mas os R$ 70 milhões perderam a voz

A manhã sergipana virou um animado campeonato de tiro ao Valmir. Liga-se o rádio e Valmir de Francisquinho já está no banco dos réus imaginário, embora tenha obtido decisão unânime favorável no STJ. Um comentarista ressuscita o matadouro, outro despacha um correspondente para procurar greve em Itabaiana e um terceiro telefona para Aracaju perguntando se apareceu ao menos um buraco novo na rua. Mas bastou a Folha de S.Paulo revelar oito contratos superiores a R$ 70 milhões entre órgãos do Governo de Sergipe e a G3 Empreendimento Ltda., pertencente à empresária Fernanda Fontes Santana, filha do médico e suplente de deputado estadual Manuel Marcos, aliado do governador Fábio Mitidieri, para a orquestra perder a partitura. A corneta da indignação desafinou, o tambor da fiscalização furou e grande parte dos microfones entrou em modo avião. Ressalve-se: não são todos. Ainda existe jornalista com coluna vertebral, curiosidade e coragem funcionando ao mesmo tempo.

A história tem personagens suficientes para uma minissérie. Manuel Marcos assumiu uma cadeira na Assembleia Legislativa quando o deputado Jorginho Araújo se licenciou para comandar a Casa Civil, justamente a pasta que, em abril de 2024, firmou com a G3 um contrato emergencial de R$ 5,3 milhões, sem licitação. Posteriormente, a empresa venceu um pregão eletrônico de aproximadamente R$ 54 milhões. Segundo a Folha, Manuel Marcos negou proximidade com Jorginho e explicou que ele seria amigo de seu genro, Ygor Menezes Santana, marido de Fernanda e servidor da Câmara Municipal de Aracaju. O detalhe divertido é que existe fotografia de Jorginho ao lado de Manuel Marcos, publicada pelo próprio deputado, que chamou o colega de “meu amigo”. Talvez seja apenas amizade com prazo de validade: vale para fotografia, homenagem e postagem, mas desaparece misteriosamente quando o repórter liga. Em Sergipe, até a amizade parece precisar de reconhecimento de firma.  

Fernanda Fontes Santana tornou-se a única sócia da G3 em abril de 2024, no mesmo mês da contratação emergencial. A empresa, antes registrada no comércio atacadista de frios, carnes e frangos congelados, ampliou seu cardápio empresarial e passou a atuar também com locação de móveis, engenharia, terraplanagem, mão de obra e monitoramento eletrônico. Foi do frango congelado à engenharia com uma velocidade que faria qualquer foguete pedir a receita do combustível. Além da Casa Civil, a reportagem cita contratos com a Fundação Renascer, no valor de R$ 9,6 milhões; Fundação Sergipana de Comunicação, por R$ 3,5 milhões; Fundação de Cultura e Arte Aperipê, por R$ 2 milhões; e Agência de Desenvolvimento de Sergipe, por R$ 1,5 milhão. O governo afirma que os procedimentos foram legais, e a G3 declara ter capacidade técnica, financeira e estrutural. Excelente. Então tragam os processos, as propostas concorrentes, as medições, os pagamentos, os empregados contratados, os serviços executados e os relatórios de fiscalização. Com mais de R$ 70 milhões em cena, entrevista não deveria faltar: deveria faltar cadeira para tanto repórter.

A pergunta à imprensa sergipana é simples: será mesmo necessário debater Valmir de Francisquinho do primeiro café até o último anúncio de colchão? Investiguem Valmir, Fábio Mitidieri, Manuel Marcos, Jorginho Araújo, Fernanda Fontes Santana, Ygor Menezes Santana e qualquer outro personagem público sobre o qual existam fatos relevantes. O jornalismo precisa assegurar paridade entre candidatos, pré-candidatos, governistas, oposicionistas e aliados do poder. Não se pede perseguição a ninguém; pede-se a distribuição democrática da curiosidade. Se há lupa para o matadouro, que haja também binóculo, microscópio e iluminação de estádio para mais de R$ 70 milhões em contratos públicos. Porque, quando Valmir espirra e o rádio transmite o boletim médico, mas uma fortuna passa diante da redação e ninguém pede sequer a placa do veículo, o problema não é falta de pauta. É excesso de seletividade no botão do volume.

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