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O peixe, o prefeito e a geladeira moral: um drama tropical de mau gosto

Ah, Socorro… O nome já dizia tudo. E, desta vez, não era um apelo religioso ou uma exclamação dramática,  era só a reação natural de qualquer pessoa que abriu um pacote de peixe distribuído pela prefeitura e sentiu o cheiro de crime. E não me refiro a corrupção, não ainda. Falo de crime contra o olfato, o estômago e a dignidade.

Sim, senhoras e senhores: em pleno século 21, com aplicativos que entregam sushi em 12 minutos e drones que levam medicamentos em regiões ribeirinhas, a Prefeitura de Nossa Senhora do Socorro conseguiu um feito quase artístico na arte da incompetência : distribuir peixe podre na Semana Santa. Um espetáculo de desrespeito embalado em isopor.

É como se tivessem dito: “Vamos alimentar os pobres com aquilo que ninguém teria coragem de dar nem ao próprio gato.” Mas claro, com a etiqueta do social, do assistencialismo, da bondade institucional. Porque quando o marketing fala mais alto que a logística, dá nisso: a esmola vem em forma de toxina.

E o mais impressionante: o peixe não caiu do céu. Ele foi comprado. Com dinheiro público. O seu, o meu, o nosso, aquele mesmo que deveria estar garantindo merenda de qualidade, hospital sem fila e, veja só, comida segura. A compra foi feita, o transporte realizado, a entrega organizada. Em algum momento do processo, alguém cheirou aquilo e achou: “Hmmm, dá pra passar.” O problema é que passou foi do ponto. E da ética também.

A reação da prefeitura? Um clássico do gênero “Negação Total com Ensaio de Drama Político”. O prefeito Samuel Carvalho, que claramente não anda com o nariz em dia nem com o bom senso atualizado, resolveu dizer que era tudo mentira. Fake news. Intriga da oposição. Invenção de redes sociais. Até que… apareceu em vídeo “resolvendo a situação”. Porque, claro, nada como negar uma coisa enquanto age exatamente como se ela tivesse acontecido.

Se fosse uma série da Netflix, chamaria “Peixe Podre: Verdades que Fedem”, e o episódio piloto já traria reviravolta, cena de improviso e uma geladeira (literal e figurativamente) cheia de cadáveres administrativos.

Mas o enredo, meus caros, vai além. Porque não estamos mais no terreno do escândalo alimentar. Estamos diante de um caso gravíssimo de negligência institucional e risco à saúde pública. Imagine alguém em vulnerabilidade extrema, com fome, cozinhando aquele peixe acreditando que a prefeitura fez algo de bom por ela. Agora imagine essa pessoa indo parar no hospital. Isso não é só triste é criminoso e poeticamente revoltante.

E cadê o Ministério Público? Silêncio. Talvez esteja esperando o momento certo, talvez esteja preso no próprio congelador moral da inércia. Mas é bom lembrar: enquanto ele espera, o povo adoece. Porque quando o poder se cala diante da podridão, ele vira cúmplice por omissão.

E aí voltamos ao prefeito, aquele que prometeu fazer jus ao salário de dar inveja a ministro do STF. Se ele queria ser lembrado, conseguiu. Só não pelos bons motivos. A gestão pública não é desfile de ego em rede social, é compromisso. E compromisso, senhor prefeito, se mede não por curtidas, mas pela capacidade de não envenenar sua população em plena Sexta-feira Santa.

O que esperamos agora? Ações reais. Procedimento administrativo. Investigação séria. Responsabilização da empresa fornecedora. Transparência nos contratos. E um pedido de desculpas que, ao menos, não venha com cheiro de peixe vencido.

Porque em Socorro, a esmola virou veneno. E o povo, cansado de migalhas fedorentas, começa a perceber que o que falta não é só geladeira com termômetro, é vergonha na cara mesmo.

E cá entre nós, se isso tivesse acontecido em Paris, Berlim ou Nova York, já seria manchete internacional. Mas como é em Socorro, Sergipe, acham que a gente vai engolir calado. Pois bem: engolir, não vamos. Denunciar, vamos. E rir da tragédia, enquanto lutamos contra ela, também. Porque rir, às vezes, é tudo o que resta quando o absurdo já virou política pública

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