A vitória de Fábio Mitidieri trouxe um novo problema para o Palácio: acomodar todos os vencedores numa mesa que não cresce por decreto. O PT reelegeu Rogério Carvalho ao Senado, João Daniel à Câmara e conquistou, com Camilo Daniel, uma cadeira na Assembleia. Não se trata mais de um apoio discreto na fotografia eleitoral. O partido tem representação e capacidade de negociar participação no governo. A pergunta é quem perderá espaço quando chegarem as reivindicações. Política de coalizão exige conversa; administração pública, porém, não pode virar distribuição de lembrancinhas após a festa.
João Daniel tem um capítulo conhecido nessa história. No governo Jackson Barreto, Rose Rodrigues chegou à Secretaria da Agricultura por indicação ligada ao PT e ao deputado. Em 2019, já no governo Belivaldo Chagas, André Bomfim Ferreira assumiu a mesma pasta, também indicado por João Daniel e pelo partido. Esse histórico explica por que a Agricultura aparece nas especulações sobre uma eventual recomposição. Mas não há confirmação pública de que a secretaria tenha sido prometida agora. Se houver negociação, o governador deve explicar a escolha pelos resultados que pretende entregar ao produtor rural, não pelo tamanho da fila no corredor do Palácio.
Camilo Daniel também chega à Assembleia com mandato conquistado nas urnas, ampliando a bancada e as expectativas petistas. Rogério Carvalho, por sua vez, terá de administrar a convivência entre diferentes grupos do partido e aliados de Fábio, antigos adversários de 2022. Candisse Carvalho, jornalista, militante petista e esposa do senador, integra esse universo político; entretanto, não há confirmação de que um cargo estadual esteja reservado a ela. Justamente por isso, a pergunta é pública e legítima: quais nomes estão sendo considerados, com quais qualificações e para cumprir quais metas? O Diário Oficial não deveria funcionar como álbum de família nem como lista de presentes de campanha.
Fábio talvez imaginasse que o novo alinhamento petista caberia sem esforço no governo. A realidade costuma ser menos generosa que o discurso de posse. Cada espaço concedido altera interesses, compromissos e equilíbrios antigos. O governador pode reorganizar a equipe, mas deve assumir o custo político e justificar cada nomeação com critérios transparentes. Ao PT cabe demonstrar que deseja participar da gestão, e não apenas do organograma. Aos aliados antigos cabe entender que cargo público não é propriedade particular. E ao cidadão sergipano resta uma cobrança objetiva: depois que todos encontrarem cadeira à mesa, quem vai trabalhar para quem ficou do lado de fora?




