A vida não avisa quando está chegando ao seu último lance. Ela não toca trombetas, não levanta placas luminosas, não interrompe a partida para anunciar que o tempo está se esgotando. Pelo contrário, ela segue silenciosa, como um relógio antigo que marca as horas sem pedir licença. E talvez seja justamente aí que more o seu maior mistério: vivemos como se houvesse sempre mais uma chance, mais uma jogada, mais um amanhã disponível na prateleira dos dias.
Passamos boa parte da existência ensaiando movimentos. Planejamos, calculamos, adiamos. Guardamos palavras que deveriam ter sido ditas e pronunciamos outras que jamais deveriam ter saído da boca. Apostamos fichas em disputas pequenas, enquanto as grandes batalhas — aquelas que realmente importam — ficam para depois. Como jogadores distraídos, esquecemos que a partida é única e que cada movimento carrega consequências irreversíveis.
O último lance não é apenas o fim; é a revelação de tudo o que fomos. Ele expõe nossas escolhas, desnuda nossas prioridades e ecoa nossas omissões. No derradeiro instante, não serão os aplausos que pesarão, mas os silêncios; não serão os troféus que importarão, mas os abraços que deixamos de dar. O que realmente conta, no fim, é aquilo que fizemos quando ninguém estava olhando.
Há quem viva como se estivesse em eterna prorrogação, desperdiçando tempo com rancores, vaidades e disputas vazias. Mas o último lance não negocia com o orgulho. Ele chega, firme e definitivo, perguntando não quanto acumulamos, mas quanto amamos; não quantos nos temeram, mas quantos se sentiram acolhidos por nossa presença.
Talvez o segredo esteja em viver cada dia como se fosse uma jogada decisiva. Não no sentido dramático de quem teme o fim, mas na consciência madura de quem entende o valor do agora. Cada gesto pode ser o último. Cada conversa pode ser a despedida. Cada escolha pode ser o movimento final no tabuleiro invisível da existência.
Se soubéssemos quando será o último lance, talvez viveríamos com mais ternura. Pediríamos perdão mais rápido. Agradeceríamos com mais intensidade. Abraçaríamos com menos pressa. Mas como não sabemos, resta-nos a sabedoria de viver atentos — não ansiosos, mas conscientes.
No fim das contas, o último lance não pertence ao acaso, mas à soma de todos os anteriores. Ele é a assinatura final de uma história construída dia após dia. E quando chegar a hora de fazer esse movimento derradeiro, que ele seja digno da partida inteira. Que seja marcado por coragem, fé e amor — as únicas jogadas que jamais se arrependem de ter sido feitas.
Porque viver bem é preparar-se, todos os dias, para que, quando o último lance vier, ele não seja um susto, mas a conclusão serena de uma vida que valeu a pena.
Thiago Santos





Uma resposta
É isso aí Thiago o último lance a gente nunca sabe qdo irá acontecer porém se soubéssemos talvez não teria graça nos dias q antecedem ou não? Kkkk gostei do texto. Um abraço querido sobrinho.