“Olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo…” Sim, o céu de Aracaju está em festa, cheio de balões, fogueiras e promessas de São João. Mas aqui embaixo, no terreiro político da Câmara Municipal, o que subiu mesmo foi o tom dos discursos, a pressão da população e a cobrança por ação. Porque nem só de xote e baião vive o povo vive também de água encanada, ônibus decente, escola pra criança e respeito à Constituição.
Na sessão de ontem, quinta-feira, os vereadores trocaram o chapéu de palha pelo crachá de fiscal e teve de tudo: denúncia de obras inacabadas, escolas sem vagas, ônibus pegando fogo, moção pra surfista e projeto pra acolher mãe de autista. Teve até parlamentar virando faixa preta no jiu-jitsu da inclusão social.
Enquanto no céu o balão multicor vai sumindo… No plenário, o microfone acendeu e cada vereador soltou seu rojão. Uns para brilhar, outros pra cobrar e alguns só pra soltar fumaça. Segue o arrasta-pé legislativo com cada um dos nossos ilustres sanfoneiros da tribuna. Porque, meu amor, o céu está lindo… Mas o chão da cidade ainda está cheio de buraco.
Sonia Meire (PSOL) – A pedagoga virou fiscal do orçamento – A professora não perdoa! Sonia Meire aprovou dois Projetos de Lei de peso: um cria a Semana Municipal de Combate ao Trabalho Escravo Contemporâneo e o outro inclui o tema nas atividades extracurriculares das escolas. Mas ela não ficou só na teoria: foi pra tribuna e detonou os baixos investimentos da Secretaria Municipal de Educação. “Mais de 2 mil crianças sem vaga e só 2 escolas com ampliação? Isso é brincar de educação pública com o povo!”, disparou. Ainda deu tempo de apresentar uma moção de aplauso ao bloco “Descidão dos Quilombolas” — com direito a “Descidão Matriarcal” e tudo. Sonia, como sempre, dá aula com microfone na mão.
Sargento Byron (MDB) – O surfista do bem e o campeão da emoção – Com um discurso que fez até vereador segurar o choro, Byron subiu à tribuna para comemorar os 14 anos do seu projeto social de surf para crianças com deficiência. “Transformamos dor em inclusão. O mar me ensinou a recomeçar”, disse, com os olhos marejados. De quebra, apresentou moção de aplauso aos atletas sergipanos que fizeram bonito no Abaís Surf Festival. Conclusão: o cara é uma mistura de vereador, professor de surf e guardião de boas causas. Até recebeu um telefone de Nitinho dizendo que também quer entrar nessa onda.
Maurício Maravilha (União) – O vereador que virou encanador – Maurício foi direto: o bairro José Conrado de Araújo está virando deserto urbano. Faltam obras, água e vergonha na cara da empresa responsável. “Fazem 50 dias de promessas e nenhuma solução. Iguá tá mais pra ‘Iguá enterrar o cano’ do que pra concessionária de saneamento.” Entre uma cobrança e outra, ainda elogiou o Governo do Estado pelos festejos juninos. Mas deixou claro: festa é bom, mas obra na porta do povo é melhor.
Ricardo Vasconcelos (PSD) – O sanfoneiro do Minha Casa Minha Vida – Ricardo puxou a quadrilha pra construção civil. Enquanto o forró animava as vendas do comércio, ele lembrou que o programa Minha Casa Minha Vida tá empacado. “Sem obra, sem casa, sem pedreiro, sem futuro”, resumiu, no ritmo do baião crítico. Pediu que o Governo Federal acorde da rede e volte a investir na construção. Afinal, sem cimento e sem salário, o forró vira lamento.
Alex Melo (PRD) – O faixa preta da solidariedade – Alex veio com dois golpes certeiros: primeiro, campanha de doação de sangue, marcada pro sábado no IHHS. Segundo, o evento “Tatame da Vida”, campeonato de jiu-jitsu com foco na juventude. “Sangue bom é o que salva, e soco bom é o que ensina disciplina.” O vereador virou quase um sensei parlamentar. Só faltou subir na tribuna de kimono.
Anderson de Tuca (União) – O vereador que tá perdendo a paciência (com razão) – Anderson voltou a bater na tecla da empresa Iguá, agora pelo bairro Siqueira Campos. “Cadê a água? Cadê a sinalização nas obras? Cadê o respeito?” Ainda lembrou que quem quebra rua tem que tapar depois. Tá certíssimo. Se um dia Iguá fizer um mutirão de obras decente, esse vereador merece cortar a fita.
Binho (Podemos) – O embaixador das quadrilhas juninas – Binho estava só sorrisos com os festejos de São João. “A estrela da festa é a quadrilha!”, exaltou. E ainda celebrou a revitalização do Gonzagão, obra que saiu do papel e virou realidade no compasso do forró. No quesito animação, Binho levou nota 10 com louvor da banca de jurados juninos.
Elber Batalha (PSB) – O auditor do magistério – Enquanto uns dançam quadrilha, Elber dança nos bastidores da educação. Cobrou da Prefeitura dados sobre professores concursados, PSS, número de vagas e previsão de convocação. “Constituição manda substituir temporários por efetivos. E é isso que a gente quer: regra cumprida e concursado valorizado.” E ainda teve PL aprovado, criando programa de apoio psicológico para mães de crianças com TEA. Elber foi o vereador mais técnico da sessão – mas com alma de quem não deixa a educação pra escanteio.
Fábio Meireles (PDT) – O fiscal das sucatas com rodas – Fábio encerrou o expediente com fogo — literalmente. Mostrou vídeos de ônibus antigos circulando em Aracaju e cobrou o cumprimento do decreto que proíbe veículos com mais de 12 anos de uso. “É ônibus pegando fogo com gente dentro. Se isso não é risco à vida, o que é?” Meireles deu o grito que a população cansada de andar em carroça disfarçada de coletivo queria ouvir.




