O jornalismo, quando cumpre sua missão, não deve se contentar em apontar culpados ou eleger heróis isolados. Sua função, mais nobre e mais difícil, é a de iluminar todos os aspectos de uma realidade que, por natureza, é sempre plural.
A polêmica contratação de um carro blindado pela Prefeitura de Aracaju é um desses episódios que exigem um olhar multifacetado. De um lado, o artigo da articulista Bia Muniz cumpriu bem seu papel de destacar a atuação do vereador Elber Batalha, que de fato se levantou contra o contrato milionário, deu visibilidade política ao caso e prometeu medidas judiciais. É uma narrativa legítima: o vereador agiu como fiscal do Executivo e colocou o tema sob os holofotes do debate público.
Mas seria insuficiente e até injusto encerrar a história apenas nesse registro. Paralelamente à exposição parlamentar, houve a ação silenciosa, menos midiática, porém fundamental, do advogado Ricardo Ramos. Foi ele quem formalizou, junto ao Ministério Público, as representações que deram origem ao procedimento oficial. O que antes era discurso político e indignação popular transformou-se, graças à sua iniciativa jurídica, em documentos, pareceres e recomendações concretas de suspensão do contrato.
É justamente aqui que cabe a reflexão crítica: o jornalismo não pode se deixar levar pela tentação de narrativas simplificadoras, que transformam processos coletivos em trajetórias individuais. Ao fazer isso, corre-se o risco de empobrecer a compreensão do leitor, reduzindo a democracia a uma disputa de protagonismo.
O caso do carro blindado não pertence apenas ao vereador que fez barulho, nem apenas ao advogado que buscou o Ministério Público. Ele pertence ao cidadão comum, que viu em risco o uso responsável dos recursos públicos. Pertence também às instituições que cumpriram seus papéis: a imprensa, que denunciou; a advocacia, que formalizou; o parlamento, que ecoou; o Ministério Público, que apurou.
O desafio da imprensa e aqui falo como ombudsman, é reconhecer essa complexidade, sem medo de relativizar créditos e dividir méritos. Se, por um lado, é necessário aplaudir o gesto político que rompe o silêncio, por outro, é igualmente necessário valorizar a perseverança técnica que transforma indignação em efeito prático.
Mais do que responder à pergunta “quem merece os louros?”, este episódio deveria provocar uma indagação mais ampla: por que ainda precisamos de escândalos para que a fiscalização aconteça? Por que o planejamento e a transparência não são a regra, mas a exceção?
A blindagem, afinal, não está apenas no carro. Está, muitas vezes, nas estruturas de poder que resistem a ser fiscalizadas. Rompê-las exige vozes diversas, cada uma com seu peso. O papel do jornalismo, nesse cenário, é garantir que nenhuma dessas vozes seja silenciada ou diminuída.
Porque, no fim, não importa quem falou primeiro ou quem protocolou depois. Importa que o contrato foi questionado, suspenso e devolvido ao crivo da legalidade. Esse, sim, é o mérito coletivo que deve ser celebrado.




