Desinformação sobre metanol provoca prejuízo em bares da Atalaia e do interior. Ministério Público e órgãos estaduais intensificam fiscalização para conter o pânico e proteger a economia local.
A crise do metanol nas bebidas virou o mais novo vírus da desinformação e, desta vez, o estrago não ficou apenas nas redes sociais. Em Sergipe, o pânico digital derrubou o movimento em bares, restaurantes e lanchonetes, atingindo especialmente as casas da Orla da Atalaia e os bares do interior, que viram o faturamento despencar no fim de semana.
Tudo começou com mensagens anônimas espalhadas em grupos de WhatsApp e Telegram. Listas falsas apontavam supostos “locais interditados” e “marcas perigosas”, sem fonte, data ou qualquer vínculo com a realidade. O que era conversa de grupo virou colapso de confiança: o consumidor deixou de pedir a caipirinha, o garçom perdeu gorjeta e o dono do bar viu o caixa secar.
No domingo (5), a Polícia Militar apreendeu 124 garrafas adulteradas em Nossa Senhora do Socorro, após denúncia anônima. Dois homens fugiram do local. A ocorrência, isolada e ainda sob investigação, foi o suficiente para a desinformação virar manchete de pânico. Em minutos, as redes sociais já falavam em “rede nacional de falsificação” e “bebidas letais”.
Enquanto a verdade andava de carona na viatura, a mentira corria solta. Empresários tiveram prejuízo, funcionários foram dispensados e o setor, que já sofre com alta carga tributária e queda no consumo, foi novamente punido pelo sensacionalismo. A desinformação virou uma arma econômica: destrói a confiança, derruba o consumo e alimenta o medo, o combustível preferido de quem lucra com o caos. Cada mensagem sem fonte é uma pedrada na economia local. E, quando se espalha sem pensar, o prejuízo chega antes da verdade.
Diante do cenário, o Ministério Público de Sergipe (MPSE) anunciou nesta segunda-feira (6) a criação de uma força-tarefa de fiscalização de bebidas em todo o estado. A ação, integrada com o PROCON Estadual e Municipal, Polícia Civil e Militar, institutos de perícia e vigilâncias sanitárias, tem como objetivo identificar produtos adulterados e proteger a saúde dos consumidores.
A promotora de Justiça Euza Missano destacou que foram emitidas notas técnicas com orientações preventivas para comerciantes e consumidores. “Nosso foco é evitar impactos negativos no mercado local e, sobretudo, proteger a integridade física das pessoas”, afirmou.
O presidente da Abrasel, Bruno Dória, informou que a entidade lançou uma cartilha digital para ajudar bares e restaurantes a identificar bebidas falsificadas. Segundo ele, cerca de 30% das bebidas comercializadas no país são falsificadas, mas não há registros confirmados em estabelecimentos regulares de Sergipe.
Já o diretor estadual de Vigilância e Saúde, Marcos Aurélio, lembrou que “o problema das bebidas falsificadas é também social”. Ele destacou a importância da integração entre os órgãos para dar respostas rápidas e seguras à população.
O PROCON Estadual, por meio de Raquel Martins, informou que está preparado para atuar em campo e receber denúncias. “A partir das comunicações dos consumidores, poderemos rastrear a origem dos produtos e garantir segurança a quem consome”, explicou.
A operação do MPSE deve abranger todo o estado, com coleta de amostras, análises laboratoriais e verificação de documentos fiscais de fornecedores. A meta é simples: impedir que o medo paralise a economia e que a mentira continue ditando o consumo.
Sergipe vive de gente que trabalha e serve com dignidade. Mas cada boato compartilhado vira um desemprego a mais, uma mesa vazia, um copo que não se levanta. O WhatsApp não fabrica o pânico; quem fabrica é o dedo apressado de quem encaminha sem pensar.
A desinformação já é o crime econômico mais lucrativo do Brasil e, em Sergipe, ameaça empregos, renda e reputação. Mentira não dá buzz, dá prejuízo. E quem aperta “encaminhar” pode estar ajudando a quebrar o próprio estado.




