Sergipe acordou essa semana com um escândalo que parecia pauta de churrasco de final de ano entre amigos, virou notícia nacional e agora é caso de vergonha institucional. Um vídeo circulou mostrando um professor da Universidade Federal de Sergipe em plena sala de aula, bebida alcoólica na mão, como se a disciplina fosse “Introdução ao Happy Hour”. A gravação, feita por um vigilante que tentou chamar a atenção do docente, expôs não apenas uma atitude lamentável, mas um problema muito mais profundo: a perda de limites entre espaço acadêmico e boteco universitário.
O episódio virou piada nas redes sociais, e não sem razão. Se a sala de aula virou pub, qual será o próximo passo? Curso de coquetelaria no currículo obrigatório? Happy hour com súmula? Brincadeiras à parte, nada disso releva a gravidade de um professor universitário entrar em seu local de trabalho com bebida alcoólica e responder com altivez ao vigilante, numa mistura de arrogância e desdém: “a sala é minha, faço o que quiser”. É exatamente esse tipo de mentalidade que corrói a credibilidade das instituições que deveriam zelar pela formação de nossas futuras gerações.
É verdade que nós, enquanto veículo de imprensa, preferimos não entrar inicialmente na polêmica por uma questão de responsabilidade e equilíbrio editorial, especialmente após críticas de leitores que argumentaram que atacar a universidade seria perseguição. Mas quando o caso vira meme nacional, quando aparece no Trending Topics, quando professores de outras universidades começam a ser questionados sobre a cultura interna das instituições públicas, aí não dá para se omitir. Educação pública de qualidade exige respeito, decoro e compromisso com o estudante, não um “fulano bêbado dando aula”.
E aqui é preciso tecer uma crítica direta ao reitor da Universidade Federal de Sergipe, professor Reitor Anadré Maurício. A sociedade sergipana, os estudantes, os pais e mães de alunos, e, na verdade, todo cidadã(o) que paga seus impostos têm o direito de saber: qual será a posição da UFS diante desse episódio? Uma instituição de ensino pode simplesmente “investigar” um professor flagrado em vídeo desrespeitando normas básicas de convivência e responsabilidade profissional, ou a instituição precisa deixar claro à sociedade que suas regras valem tanto para o aluno quanto para o docente? A resposta esperada não é discurso burocrático, é ação.
Vamos aos fatos: nem os códigos penais, nem as legislações educacionais contemplam a ideia de um docente ministrar aula sob efeito de álcool. Universidades federais como um todo têm regimentos internos rígidos que proíbem condutas que atentem contra a ordem acadêmica, a segurança dos alunos ou o decoro da função docente. Além disso, o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente e normativas do MEC guardam muito mais rigor que a simples cena de alguém “fazendo o que quer na própria sala”.
O regimento interno da UFS, por exemplo, prevê sanções disciplinares para servidores que desrespeitem normas de conduta, afetem a dignidade da função pública ou comprometam a missão institucional. Se um aluno é punido por entrar com bebidas ou perturbar uma aula, então qual é a justificativa para um professor sentir-se no direito de abrir a lata em plena sala e ainda reagir com arrogância a um trabalhador que exerce sua função? Isso não é apenas desconexo com a missão da universidade; é um insulto ao ethos acadêmico.
E não se pode fechar os olhos para outro ponto. A primeira reação da universidade a esse caso foi demitir o vigilante que chamou a atenção do professor e depois, quando o episódio ganhou repercussão, a UFS recuou e readmitiu o profissional. Isso levanta uma pergunta simples, mas incômoda: qual é a prioridade da instituição? Proteger quem zela pelo ambiente seguro ou proteger quem o transforma em cenário de comportamento questionável? O recuo institucional mais parece sombra do que luz.
Enquanto isso, a população observa incredulidade. Pais e mães que depositam confiança na universidade para educar seus filhos veem uma cena que parece piada pronta. E nem vale dizer que “ninguém aqui é contra beber”. Não é contra a bebida. É contra a escolha do local e da função. Sala de aula não é bar, não é palco para exibicionismo alcoólico. É espaço de ensino, de respeito, de responsabilidade. Confundir um com o outro é desrespeitar a própria missão da educação.
Sociedade, estudantes e autoridades, inclusive a Polícia Federal quando o caso atingir o nível de violação administrativa ou penal, têm o direito de ter respostas claras e ações firmes. Estamos diante de uma instituição pública que precisa se posicionar com transparência, rigor e compromisso com seus pilares. O episódio não pode ser apenas mais um que cai no esquecimento dos Trending Topics. Tem que gerar efeito duradouro na maneira como a universidade cuida de sua comunidade acadêmica.
No fim das contas, não se trata de demonizar um professor, mas de perceber que a educação pública merece zelo, decoro e responsabilidade. Se a UFS quer ser levada a sério e certamente quer, então precisa demonstrar que seus valores são mais que palavras em papel. Precisam ser vividos dentro de cada sala de aula. Porque, se sala de aula virar bar, a credibilidade da universidade vira piada. E piada, neste caso, é o que ninguém mais quer ouvir.




