Tem barraco, tem ego ferido, tem grito de “me respeite!”, tem “moça” que virou ofensa, tem jornalista jurássico, tem deputada que se esquece de onde veio e tem um Brasil que parece um episódio de reality show mal roteirizado, mas transmitido em horário nobre no Jornal Nacional da discórdia.
Vamos direto ao ponto: o entrevero (gostei da palavra) entre a deputada federal Yandra Moura e o jornalista Carlos Ferreira foi mais um espetáculo de um país onde todo mundo está com os nervos à flor da pele, a autoestima armada e o dedo no gatilho da vitimização.
Comecemos por Yandra. A deputada, jovem, articulada, cheia de gás, fez um vídeo indignada, usando um tom que misturava raiva contida com lágrimas. Pediu respeito, falou de etarismo, sexismo, pressão institucional e, claro, colocou o jornalista como o grande vilão da história. E vamos ser justas: sim, ela tem razão em reclamar do estado da cidade. O lixo está um lixo, literal e figurativamente. Mas o que era para ser uma crítica administrativa virou um show de ressentimento pessoal. E perdeu o timing: o vídeo chegou tarde, como vestido de noiva em enterro.
E aí vem Carlos Ferreira, o outro protagonista dessa ópera de ego e drama. Veterano da imprensa, mais de 45 anos de carreira, Carlos é daquele tempo em que se chamava colega de “moço”, “querida”, “minha linda”, “coisinha” e ninguém fazia um dossiê de opressão em cima disso. Mas esse tempo passou. Passou mesmo. Ele parece não ter atualizado o software de linguagem e comportamento. Aí, no afã de defender a prefeita e sua pauta, entrou de sola, com a sutileza de um sapato número 44 em desfile de salto agulha. O resultado? Dois adultos, cada um com suas vivências, decidiram travar uma guerra pública onde não havia campo de batalha.
Agora, vamos falar da tal “ditadura das minorias”. Essa expressão é perigosa e mal colocada. Dizer que estamos numa ditadura de quem sempre foi silenciado é, no mínimo, irônico. As minorias estão apenas tentando existir, se manifestar, reagir. E tudo bem, mas quando toda crítica vira opressão e todo comentário vira processo, acabamos paralisados, sem diálogo. Vivemos hoje num Brasil onde uma palavra pode te levar à guilhotina digital, mas ninguém quer, de fato, escutar o outro.
Yandra, com todo respeito, você usa o sobrenome político do seu avô, assim como seu pai (mesmo que não seja legalmente o seu) para herdar votos. Isso é escolha. E escolhas públicas têm consequências. Não dá para pegar o bônus do nome e se fazer de anônima no ônus. Se Carlos errou na forma, você também exagerou na leitura do contexto.
Carlos, meu amor, atualize o dicionário. Chamar de “moça” já não cola como cortesia universal. O mundo mudou. Seus ouvintes têm mais sensibilidade e menos paciência. Se você quiser continuar relevante, precisa pisar mais leve e ouvir mais também.
E como a vida não é feita só de duelos entre microfones e mandatos, entra em cena mais um personagem desse nosso folhetim da vaidade nacional: o delegado André Davi. Ao ver uma crítica feita por mim sobre o carro blindado da prefeita, ele achou por bem me lembrar, publicamente, que antes de opinar sobre segurança pública, eu deveria pedir autorização a ele. Sim, você leu certo. Para ele, liberdade de expressão agora exige visto carimbado pela autoridade policial.
Mas vejam bem: eu não transformei isso em um escândalo de “machismo estrutural”. Não chorei no banheiro nem fiz vídeo com filtro dramático. Preferi encarar como o que foi: uma manifestação desajeitada de vaidade técnica, típica de quem ainda confunde cargo com trono. E segui adiante. Porque maturidade, meus amores, é saber distinguir um ataque de uma bobagem.
Olha aí a lição do dia: maturidade não se compra na 25 de Março. Esse episódio não tem mocinho nem vilão. Tem só dois protagonistas intoxicados pelo próprio ego e uma plateia cansada de tanto monólogo disfarçado de discurso empático.
Fica a dica: da próxima vez, menos lacração, mais reflexão. O mundo não precisa de mais brigas públicas para alimentar o algoritmo. Precisa de diálogo verdadeiro. E de gente grande que sabe que nem tudo gira ao redor do próprio umbigo, mesmo que ele esteja coberto por uma camisa de grife ou escondido atrás de um microfone. Beijos Yandra! Beijos Carlinhos!





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