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A Grande Assembleia da Floresta dos Advogados: O Dia do Quinto Constitucional

Esta é uma fábula e, como toda fábula, vive de metáforas. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência… ou mera confidência. Hoje à noite, porém, o Leãozinho tem diante de si uma rara oportunidade: pode transformar o rugido protocolar em gesto de grandeza, marcar um ponto positivo para a democracia da floresta e deixar sua passagem pela presidência da OBF lembrada não pelo eco das vaidades, mas pelo respeito às regras do jogo coletivo.

Há mais de um ano, os animais dessa mata escutam histórias, fábulas que, por meio de bichos e metáforas, revelaram os bastidores do poder escondido sob a copa densa da advocacia O Leãozinho Daniel rugia sem mando próprio, o Caçador CAM tecia estratégias invisíveis, o Pavão desfilava, o Rato ABES corria em busca de queijo democrático, a Coruja Clara lançava reflexões noturnas, o Tigre Roberti rugia por coragem, e a Preguiça Inácio ironizava da copa alta.

Essas fábulas, contadas com humor e acidez, não foram apenas histórias: foram espelhos literários, capazes de recalcar a realidade política e expô-la com clareza. Hoje, nesta noite de virada, quando a floresta discute o dilema do Quinto Constitucional, todos esses bichos se reúnem em assembleia. O palco é a clareira central; o público, toda a floresta; o tema, nada menos do que o futuro da democracia interna.

A lua ainda nem subiu no céu e a clareira já parece auditório: bancos de cipó, microfones de taquara, ata pregada num tronco com resina e, ao fundo, o escudo do Conselho da Ordem dos Bichos. Hoje tem reunião decisiva sobre o Quinto Constitucional  e todo mundo trouxe opinião na marmita.

Super Mouse ABES (subindo num tronco que range, com o olhar firme e voz embargada de coragem): — Companheiros, vivemos fábulas, corremos, rugimos, debatemos… Mas hoje não é dia de vaidade: é dia de união. Se não estivermos juntos, continuaremos presa fácil do Caçador CAM e do Leãozinho Daniel Alves.

Nesse instante, um murmúrio de respeito percorreu a clareira. Afinal, não era qualquer rato que ousava desafiar os poderosos da selva. Foi ABES quem teve a ousadia de ir até a Justiça, levando nas patinhas o peso da democracia da Ordem dos Bichos da Floresta. Enquanto muitos se calaram ou recuaram, ele avançou, roendo as correntes do silêncio e exigindo que o rito democrático fosse respeitado.

Preguiça Inácio (abrindo lentamente um olho, mas com rara seriedade):
— Esse aí merece palmas de pé… ou de galho. Poucos têm coragem de enfrentar a maré da mata; o Jacaré Cícero (batendo a cauda no rio): — Verdade. Rato pequeno, mas com coragem de leão. Se não fosse ele, essa assembleia nem estaria de pé hoje; a Coruja Clara (com um leve giro de cabeça, em tom sarcástico, mas sincero): — Pois é, meus caros: às vezes, é o menor que lembra aos grandes o valor da coragem. E assim, o nome de ABES ecoou como símbolo: não apenas um rato barulhento, mas um verdadeiro guardião da democracia da floresta, aquele que ousou quando todos os outros hesitavam.

Gato Coroa Waguinho Ribeiro — Registra-se “união”. Substantivo raro, espécie em extinção na floresta. Ele levantou os olhos por cima das lentes, coçou o bigode e, por um instante, deixou escapar um miado surpreso: — Confesso que estou impressionado… depois de tanto tempo de intrigas, ouvir essa palavra aqui soa quase como música. Será que, enfim, os bichos resolveram lembrar que são parte da mesma mata? A clareira riu, mas também assentiu. O velho Gato Coroa, conhecido por sua fleuma e ironia, raramente se deixava surpreender. E justamente por isso, sua admissão de espanto teve o peso de um veredito: algo diferente estava, de fato, acontecendo naquela noite.

Coruja Clara (ajeita os óculos, gira a cabeça 180° e dispara): — União? Palavra linda, embalagem premium… conteúdo nem sempre. Aqui cada um caça o próprio holofote: queijo, folha, pena, selfie. Se a Ordem não retomar a seriedade, viramos zoológico de vaidades & Cia. Ltda.

Pavão Márcio Conrado (abre as asas, já de peito inflado, tentando manter a pose, mas com o tom carregado de lamento): — Zoológico? Querida Coruja, democracia sem espetáculo é júri sem plateia. Eu brilho porque a mata precisa de luz! Fez uma pausa, ajeitou as penas com exagero e suspirou teatralmente: — Mas digo a vocês… confesso que esperava outra condução. Corre pela floresta que eu era o preferido da diretoria da Ordem, o escolhido natural para este Quinto. Andei ensaiando discursos, polindo as plumas, até treinando meu rodopio diante do espelho d’água. E agora… vejo esse sonho escorrer como orvalho.

Antes que a clareira caísse no silêncio, o Macaco Getúlio saltou de galho em galho, com um cacho de bananas na mão, e disparou em gargalhada: — Ká-ká-ká! Ô Pavão, quem vive de preferência alheia acaba com pluma molhada na primeira chuva! Democracia, meu caro, não se ganha com desfile nem com pose de vitrine: precisa convencer a mata inteira. O Macaco fez então uma imitação debochada do Pavão, abrindo os braços como se fossem asas e rodopiando no galho mais alto: — “Olhem para mim, eu brilho, logo existo!” — dizia, enquanto os outros animais riam às gargalhadas.

O Pavão inflou o peito, tentando manter a dignidade, mas não conseguiu disfarçar o desconforto. A floresta inteira percebia: o favoritismo que ele tanto proclamava começava a se desfazer diante do riso coletivo. Coruja Clara (com ironia afiada): — E, sinceramente, Pavão, se brilho fosse critério, o céu estrelado já teria cadeira cativa no Conselho. O Pavão recolheu um pouco as asas, mas manteve o bico erguido, como quem ainda acreditava que, em algum galho escondido, a diretoria o olhava com olhos cúmplices.

Preguiça Inácio : — Calma, Coruja. Coragem sem estratégia é rugido com eco curto. Nosso problema é clássico: pressa pra errar, preguiça pra acertar. Lebre Ana Lúcia : — Preguiça, com seu ritmo o processo prescreve de tédio! Precisamos correr, pressionar, protocolar! Relógio de floresta marca em folhas, não em séculos.

Elefante Evânio (ergue a tromba, voz grave, com a cadência de quem leu todas as súmulas e ainda lembra da doutrina): — Meus caros, democracia é equilíbrio. Nem o turbo apressado da Lebre Ana Lúcia, nem o modo soneca da Preguiça Inácio. O essencial é simples: não permitir que meia dúzia decida pelo floresta. O Quinto Constitucional nasceu para ser instrumento de pluralidade  e se virar moeda de troca ou vitrine de vaidade, perde sua razão de existir. 

Rinoceronte Juvenal (batendo forte o casco no chão, levantando poeira): — Concordo, Evânio. O que está em jogo não é só um assento na árvore suprema, é a própria legitimidade da Ordem. Se o processo se contamina por favoritismo ou arranjo de bastidores, não temos Quinto: temos atalho. E atalho, todos sabemos, sempre acaba em barranco. 

Tamanduá Carlos Pina (farejando o ar, mas com expressão de quem já desistiu da corrida): — O cheiro é ruim, sim. Mas devo dizer: voltei à Procuradoria do Estado, não sou mais jogador dessa partida. Mesmo assim, como jurista, registro: quando o Conselho concentra poder demais, a floresta corre o risco de virar condomínio fechado. E condomínio fechado não é democracia, é exclusão.

Águia Clóvis Barbosa de Melo (plana sobre a clareira, pousando no brasão com imponência de ex-presidente da Ordem): — O Elefante tem razão. O voto direto é a asa da nossa democracia. Cortá-la seria condenar todos a uma queda coletiva. Já vi muitos leões e caçadores acharem que controlavam a floresta; todos caíram, porque esqueceram que a legitimidade não se decreta, se constrói com confiança. E confiança não existe sem transparência.

Gato Coroa Waguinho Ribeiro (nos bastidores, com óculos na ponta do focinho, anotando como se fosse taquígrafo): — Registra-se: “pluralidade”, “legitimidade” e “transparência”. Três palavras em extinção, mas que, curiosamente, ainda encontram eco nesta clareira. Ele ergue o olhar, impressionado: — E confesso, senhores, é raro ver tamanha convergência entre gigantes da floresta. Se até o Elefante, o Rinoceronte e a Águia falam em uníssono, talvez esta noite marque, de fato, um ponto de virada.

A assembleia silenciou por um momento. Até os mais céticos perceberam que havia algo solene no ar. A fala do Elefante Evânio, sobretudo, ecoava como sentença: o Quinto não é prêmio, é pilar e quem ousasse transformá-lo em troféu, cairia junto com as próprias ambições.

O bate-bola esquenta (direito de resposta liberado). Pavão Conrado (ajeita a cauda, ofendidíssimo): — Eu, sinceramente, não vejo problema em “critério técnico elegante”. O Conselho filtra o melhor do melhor. A Coruja Clara (sorriso de canto): — Filtro com pena colorida costuma entupir. Critério técnico é transparente; critério estético é vitrine. O Jacaré Cícero: — E vitrine dá reflexo. Reflexo dá selfie. Selfie dá… problema.

Lebre Ana (aparte para o Super Mouse, saltando de um lado a outro): — ABES, vamos propor cronograma claro: prazo de inscrição respeitado, debate público, sabatina aberta e votação auditável. E, por favor, nada de “áudio vazado” como fundamento de decisão. ABES (erguendo as patinhas, animado): — Fechadíssimo, Lebre! E acrescento um aditivo essencial: a lista sêxtupla deve ser fruto de voto direto, sem puxadinho normativo ou truque de bastidor. A Preguiça Inácio (com precisão cirúrgica, mas no seu ritmo lento): — E lembrem-se: ata sem assinatura na margem é janela para tempestade. Tudo tem que sair redondo, para que o rito não apodreça depois. Águia Clóvis (seca, com a autoridade de quem já viu de tudo): — Deve estar testando o microfone. E microfone, meus amigos, é sempre sensível à vaidade. O Elefante Evânio (ergue a tromba, conciliador, mas firme): — Pois que venha o rugido, mas que traga resolução junto. Rugido sem documento é só show de floresta.

Nesse momento, os animais se entreolharam e, num raro consenso, bateram cascos, patas e asas em concordância. A clareira inteira ecoou como assembleia: ficava decidido que o novo modelo seria de eleições diretas. Para não atrasar o processo, todos os inscritos permaneceriam na disputa, e caberia à Comissão Eleitoral avaliar quem ainda está apto a buscar a cadeira suprema. A unanimidade surpreendeu até os mais céticos. Pela primeira vez em muito tempo, a floresta parecia falar a mesma língua: a da democracia direta.

A noite descia sobre a Floresta dos Advogados, e a clareira central se iluminava com tochas de cipó e vaga-lumes convocados especialmente para a ocasião. Não era uma reunião qualquer: era o dia da virada, quando os bichos finalmente discutiriam se a democracia voltaria a reinar no processo do Quinto Constitucional.

Durante meses, alguns diriam anos, a mata viveu de rumores, manobras e pesquisas tortas. O Leãozinho rugia sem convicção, o Caçador afiava suas setas, e o Pavão rodopiava acreditando que já tinha vaga cativa na árvore suprema. Mas os tempos haviam mudado. As fábulas circularam, abriram olhos, cutucaram consciências e, pouco a pouco, a floresta se reconheceu no espelho: não queria mais espetáculo, queria legitimidade.

E foi assim que, sob o luar, cada animal se preparou para arriscar seu prognóstico sobre a sessão histórica. Do pequeno Rato ABES, que ousou roer o silêncio na Justiça, ao Elefante Evânio, cuja voz grave ecoava como jurisprudência da mata, todos sabiam: dali sairia não apenas um resultado, mas um marco na memória da Ordem dos Bichos.

Super Mouse: — Se o Conselho ouvir a mata, vence o voto direto com folga. Se ignorar, ganha recurso e longo. Coruja Clara: — Vejo dois cenários: 1) bom senso e rito limpo; 2) vaidades em revezamento. Em ambos, nossas fábulas continuam servindo como manual anti-truque. Pavão Conrado: — Prevejo aplausos… preferencialmente para mim, claro. Se o voto for direto, já preparei até discurso com rodopio. Cabra Tatiane:  — Pavão, poupe o rodopio. Voto direto é pra dar firmeza, não mal-estar. Concordo com o ABES: lista limpa, clara e sem puxadinho. E quem tentar empurrar jeitinho vai levar chifrada regimental! Tucano Victor: — Tatiane tem razão! Democracia sem voto direto é igual tucano sem bico: ninguém leva a sério. Concordo em gênero, número e galho. E já aviso: se tentarem furar a fila, dou bicada com nota de rodapé. Cutia Carla: — Concordo também! Se todos ficam inscritos e a Comissão Eleitoral só filtra quem ainda está apto, ninguém pode reclamar. O que não pode é inventar moda. Democracia é como documento: se faltar assinatura, não vale! Preguiça Inácio : — Prevejo sessão longa. Tragam folhas… de chá. Mas confesso: voto direto até me anima. Dá menos sono do que comissão cheia de enrolação.

Lebre Ana: — Prevejo mobilização! Se cochilar, vira pauta surpresa. Por isso já corri três voltas na floresta só pra avisar a todos: hoje ninguém dorme! Tamanduá Carlos Pina:  — Prevejo diligência no formigueiro dos “critérios”. Se tiver açúcar demais, é porque tem jeitinho. Mas se for voto direto, nem preciso farejar: já tá limpo. Águia Clóvis : — Prevejo ata com asas: clara, objetiva e pública. Sem voo cego, sem sombra de caçador. Voto direto é horizonte aberto. Elefante Evânio : — Prevejo uma palavra final que resume tudo: legitimidade. Voto direto garante isso. Sem ele, só resta dúvida e mancha na história da floresta.

A clareira iluminada, antes que os debates finais começassem, todos os bichos fizeram uma pausa. Era preciso reconhecer que, sem as fábulas que circularam pela floresta, talvez nada disso tivesse acontecido. O Fabulista, com sua pena afiada e humor certeiro, deu nomes e formas ao que antes era só sussurro: transformou vaidade em pavão, manobra em caçador, indecisão em preguiça, coragem em rato. Cada história fez a floresta rir, refletir e, sobretudo, acordar. Por isso, naquele instante solene, antes mesmo das previsões sobre o resultado da noite, todos se voltaram em uníssono para agradecer ao contador de histórias que havia colocado a democracia de volta no centro da roda. Então falaram entre si:

Cabra Tatiane (firme, direta, sem rodeios): — Se chegamos até aqui, foi porque alguém acendeu a lanterna certa. O Fabulista traduziu bastidores em bicho, intriga em metáfora, vaidade em moral de história. Lembrou que a palavra também é ferramenta de controle e que o riso, meus amigos, é parente próximo da coragem.

Elefante Evânio: — Concordo, Cabra. As fábulas devolveram clareza ao processo. Mostraram à advocacia sergipana que o Quinto não é prêmio, não é moeda de troca; é um mecanismo de equilíbrio entre poderes. E equilíbrio, todos sabemos, não se terceiriza.

Super Mouse ABES: — Posso dizer de peito aberto: sem essas fábulas eu teria sido apenas um rato barulhento. Com elas, encontrei força para ir à Justiça, roer correntes e exigir democracia. Hoje à noite, seja qual for o desfecho, uma parte já está garantida: a democracia foi recomposta na narrativa e no rito.

Coruja Clara : — O Fabulista nos ensinou que ver de noite é útil, mas rir da noite é ainda mais revelador. Transformou sombra em clareza e deu lógica até às maiores trapalhadas da floresta.

Tucano Victor : — Ele mostrou que a democracia precisa de cor e de canto, mas não de espetáculo vazio. Fez da sátira um voto de confiança na inteligência coletiva.

Cutia Carla: — Para mim, o Fabulista foi como notário: registrou tudo. E registrou de um jeito que ninguém pôde alegar desconhecimento. Quem leu, entendeu. Quem entendeu, não esquece.

Águia Clóvis: — E eu acrescento: fábula também é doutrina. Servirá, daqui em diante, como jurisprudência moral da floresta.

Caçador CAM: — O Fabulista trancou nossa história, amarrou minhas flechas em palavras afiadas. Mas, hoje, reconheço: os advogados têm o direito de uma lista aberta. Democracia não se caça, se cultiva.

Leãozinho Daniel: — O Fabulista me critica há anos, e como dói! Mas de uma coisa não posso discordar: vence a democracia, e com ela vence a advocacia. Que rugido meu algum pode apagar isso.

Pavão Márcio: — Preciso me preparar para uma nova batalha que não esperava. Mas, no fundo das minhas plumas, eu já sabia: o Fabulista tinha razão. E olhem que não vou com a escrita dele! Ainda assim, a sátira me lembrou que, sem democracia, nem pavão desfila.

Na selva da Ordem, plumas enfeitam, mas não legitimam; garras assustam, mas não substituem regra; voo inspira, mas exige transparência. Quando a floresta fala em coro, leões rugem mais baixo, caçadores erram a mira e o Conselho finalmente se lembra: está ali para representar, não para usurpar. Que esta noite termine com ata assinada, rito limpo e cada bicho, grande ou pequeno, podendo dizer em uníssono: — “Fomos nós que decidimos.”

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