2025 não passou. Foi menos um ano e mais um corredor polonês onde a política sergipana apanhou de todos os lados e ainda teve que fingir que estava tudo sob controle. Quem sobreviveu, sobreviveu cansado. Quem caiu, caiu fazendo barulho. Não teve intervalo, não teve mês morno, não teve respiro. Sergipe atravessou o calendário como quem sabe que o chão está minado, mas insiste em correr. Cada explosão vinha com cara de surpresa, embora todo mundo soubesse que ia estourar. O ano começou pesado, virou barulho contínuo e terminou deixando claro o óbvio que muitos fingem não ver: 2026 não é futuro. Já está sentado, pediu café e quer sobremesa.
Março chegou pisando forte. O mundo católico ficou em silêncio, mas as ruas falaram. A morte do Papa Francisco não foi só luto religioso, foi fechamento de ciclo. Um papa que tentou conversar com o mundo real sem pedir permissão ao altar, que incomodou cardeais, cutucou poderosos e abriu espaço para quem nunca teve voz. Morreu como viveu, simples, direto e sem enfeite. Sergipe olhou de longe, mas sentiu. Logo depois veio Leão XIV, um papa americano com sotaque latino e discurso de continuidade. O Vaticano voltou ao centro do tabuleiro e a política global reaprendeu uma lição antiga: até o silêncio tem estratégia.
Enquanto isso, no chão quente da realidade, professor cruzou os braços. Não foi birra, foi cansaço acumulado. Piso descumprido, escola caindo aos pedaços, inclusão feita no improviso. A Marcha do Magistério tomou Aracaju e lembrou ao governo algo básico, educação não é favor, é estrutura. Tentaram resolver com fala bonita e planilha apertada. Não colou. Março deixou claro que quando a sala fica vazia, o problema nunca é o quadro negro.
Abril veio menos simbólico e mais concreto. Itabaiana resolveu fazer o óbvio que virou exceção: tratou o autismo como política pública, não como post de rede social. Enquanto muita gente pintava poste de azul e batia foto, Itabaiana abriu centro, contratou equipe, atendeu famílias. Gestão medida em atendimento, não em faixa. No mesmo mês, a tragédia caiu sem pedir licença. Mãe e filho despencaram do décimo andar em Aracaju e junto foi embora a fantasia de que dor escolhe endereço. Abril esfregou na cara de todos que saúde mental não é luxo de palestra, é urgência de sobrevivência.
Maio foi o mês em que a conta chegou sem aviso. Em Lagarto, o prefeito da calamidade percebeu tarde que discurso não paga salário. Gastos explodiram, concursados ficaram a ver navios e a tal austeridade virou peça decorativa. Um vereador fez o que deveria ser regra, abriu a planilha. Os números falaram e a cidade entendeu que calamidade às vezes é só narrativa de posse mal ensaiada. No Judiciário, o TRE fez o básico e virou exceção: multou fake news e lembrou que liberdade de expressão não é salvo conduto para delírio. Maio também levou Monsenhor Carvalho, quase cem anos de fé crítica, coragem e presença popular. Falava baixo, mas incomodava alto.
Junho foi indigesto. Fraudes bilionárias no INSS mostraram que o crime sabe usar crachá e carimbo. A Polícia Federal prendeu, apreendeu, prometeu aprofundar e o aposentado continuou esperando o dinheiro voltar. Em Aracaju, a cidade ficou sem lixo e o improviso virou política pública. Empresa saiu, outra entrou correndo, o cidadão fez o de sempre, torceu. Junho também levou Edinaldo César, juiz que não usava toga como escudo, mas como ferramenta. O Judiciário perdeu uma voz e ganhou um espelho incômodo.
Julho ignorou o inverno. Valmir de Francisquinho deixou de ser possibilidade e virou realidade eleitoral. Não foi discurso bonito, foi voto pesado. Enquanto parte da oposição discutia tese, o Pato já estava jogando. Do outro lado, o governo montava time, distribuía posição e olhava o interior com lupa. Julho ensinou o que muita gente finge não saber: eleição não se ganha no improviso e popularidade espontânea ainda decide jogo.
Agosto devolveu humanidade a um debate que a internet tenta desumanizar. Criticaram o governador por jantar com a filha. Atacaram o pai, não o gestor. Tentaram sequestrar o afeto e foram rebatidos pelo bom senso, item raro no debate político digital. A máquina seguiu funcionando e o episódio expôs o grau de crueldade normalizado. Agosto também foi mês de metamorfoses partidárias, troca de legenda, promessa esquecida e oportunismo rebatizado de maturidade política.
Setembro foi caos organizado. Prefeita ausente, crime brutal sem resposta convincente, crise hídrica histórica, adutora rompida, 270 mil imóveis sem água. Governo correndo atrás do prejuízo com atraso embutido. Justiça cassou prefeito em Lagarto, absolveu outros em Brasília, partidos se mexeram, boato tentou virar fato e a pré campanha deixou de ser disfarce. Setembro ensinou uma verdade simples: ausência governa sim, mas cobra juros altos.
Outubro veio com roteiro antigo e execução afiada. Marketing do mal reapareceu, apelidos reciclados voltaram, narrativas requentadas circularam como denúncia nova. André Moura virou alvo sem fato inédito e o texto fez o que quase ninguém faz, contextualizou. Em Socorro, até o descanso eterno virou palanque. No futebol, tentativa de gestão profissional esbarrou no passivo. No plano nacional, Lula mexeu peças, Boulos entrou, Macêdo saiu e Sergipe sentiu o impacto. Outubro matou a tese do passeio eleitoral.
Novembro escancarou o país sem filtro. Medicina virou varejo, diploma virou mercadoria e ir ao médico virou ato de fé. A UFS atravessou o ano sem comando visível e pagou o preço em espaço, verba e relevância. O pré sal apareceu como promessa com aviso embutido: riqueza sem planejamento vira escândalo. A chuva caiu, a estrada cedeu, a lama fez auditoria. A OAB virou vitrine de divisão, o Quinto Constitucional virou festa fora de época e a advocacia perdeu o rumo. Em paralelo, tradição virou economia no VIDAM, política digital virou alerta e o TCE ganhou nova presidência cercada de expectativa. Novembro não foi exceção. Foi retrato.
Dezembro acelerou. Começou com silêncio constrangedor em Socorro diante de denúncia grave e terminou com exoneração tardia. Avançou contra professores, expôs um Legislativo dócil, confirmou Itabaiana como vitrine de gestão e Valmir como liderança estadual. Trouxe reorganização partidária, consolidou a força do Republicanos, mostrou polarização até na ceia e enterrou de vez a tese de eleição sem disputa. Lagarto deixou claro que desenvolvimento se faz com ação, não com seminário. O mês fechou com aviso direto: 2026 começa no erro que você escolhe não corrigir.
2025 não encerrou nada. Escancarou. Escancarou erros, acertos, vaidades, ausências e lideranças reais. A política sergipana saiu do ano sem maquiagem. Quem dormiu perdeu espaço. Quem trabalhou ganhou densidade. Quem gritou demais cansou. Quem entregou virou referência. O calendário virou a página. A política, não




