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Robôs no Velho Chico, abandono na beira do rio

Propriá vai ganhar um campus da Universidade Federal de Sergipe, e isso deveria ser motivo de celebração sem ressalvas. Mas quando a festa passa, o foguete apaga e a poeira baixa, sobra uma pergunta incômoda na beira do Velho Chico: que campus é esse que chega ao território parecendo conhecer mais de robôs do que de Propriá? A interiorização universitária só é revolucionária quando nasce do chão onde pisa. Quando ignora a realidade local, vira maquiagem institucional. Bonita na foto, elegante no discurso e vazia na vida de quem mora ali. O rio continua à margem, o turismo continua órfão, a educação básica continua sangrando e a juventude segue olhando para o futuro como quem olha para uma canoa furada.

O problema não é levar tecnologia para o interior. Seria burrice pensar assim. O problema é vender tecnologia como solução mágica para uma região que ainda pede o básico com urgência. Propriá não está clamando primeiro por engenheiro de robô. Propriá clama por saúde, por educação, por turismo planejado, por desenvolvimento local, por gente capaz de transformar o São Francisco em vetor econômico e não apenas em paisagem bonita para fotografia de campanha. O município está sentado à beira de um dos rios mais simbólicos do Brasil e não consegue estruturar uma rede hoteleira decente. É como morar em frente ao mar e morrer de sede turística.

A contradição é quase uma piada pronta, daquelas que fazem rir para não chorar. Na região onde faltam professores, médicos, psicólogos, gestores públicos preparados, profissionais de turismo, técnicos para pensar pesca, rizicultura, leite, fruticultura, irrigação e industrialização da produção local, a resposta institucional parece ter vindo embrulhada em papel de ficção científica. Robôs no Velho Chico. Laboratório futurista em território abandonado. É a universidade olhando para o século XXII enquanto Propriá ainda tenta resolver problemas do século XX. A canoa faz água, mas alguém achou elegante instalar painel digital no remo.

E o mais grave é que havia outro caminho. O próprio debate sobre o campus de Propriá já registrava a previsão de cursos como Medicina, Psicologia e licenciaturas organizadas por grandes áreas, além de uma estrutura com 128 vagas docentes e orçamento de implantação em torno de R$ 26,5 milhões. Também se falava no potencial de impacto regional, com inclusão, empregos e desenvolvimento às margens do Velho Chico. Ou seja, não faltava ideia conectada ao território. Faltou foi coragem de manter o pé no barro, olhar para a realidade de frente e perguntar: de que profissionais Propriá realmente precisa para deixar de ser promessa e virar potência?

Medicina dialogaria com o vazio assistencial histórico. Psicologia enfrentaria dores invisíveis de uma população vulnerável. Licenciaturas atacariam a tragédia educacional na raiz. Turismo poderia transformar cultura, rio, memória e paisagem em renda. Administração e Desenvolvimento Local ajudariam a organizar vocações econômicas hoje dispersas. Engenharia de Pesca, recursos hídricos, agroindústria e áreas ligadas à produção regional teriam cheiro de chão, de rio, de feira, de fazenda, de sobrevivência real. Mas a escolha pelo brilho fácil da grife tecnológica parece aquela roupa de festa comprada para quem ainda não tem sapato.

A universidade não pode ser vitrine para currículo institucional nem outdoor acadêmico de gestor. Campus não é troféu de gabinete. Campus é instrumento de transformação social. Se nasce desconectado da economia, da cultura, da dor e da vocação do território, vira um prédio bonito produzindo frustração. Forma jovens para irem embora, não para reconstruírem a região. Produz diploma com passagem de saída. É uma bomba de sucção de cérebros financiada com dinheiro público. O filho do pescador, da trabalhadora rural, do pequeno comerciante e da classe média apertada não precisa de miragem de concreto. Precisa de curso que faça sentido para sua vida e para sua cidade.

Há também uma miopia política nesse processo. Fala-se muito em interiorização, mas pouco em escuta. Fala-se em desenvolvimento, mas pouco em vocação. Fala-se em futuro, mas se despreza o presente. O Baixo São Francisco não precisa de um campus que chegue de helicóptero conceitual, pousando de cima para baixo, como se o território fosse apenas um endereço disponível no mapa. Precisa de uma universidade que sente à mesa com pescadores, professores, comerciantes, agricultores, estudantes, prefeitos, empresários, lideranças culturais e comunidades ribeirinhas. Universidade que não escuta vira repartição com diploma na parede.

Por isso, MEC, Governo de Sergipe, Prefeitura de Propriá, UFS e lideranças políticas que apadrinham o campus precisam abandonar a espuma do lançamento e entrar no debate sério sobre a oferta de cursos. Propriá não pode receber uma universidade que trate o Velho Chico como cenário e o povo como figurante. A pergunta é simples, direta e impossível de empurrar para debaixo do tapete: esse campus vai servir ao território ou vai servir apenas à vaidade de quem gosta de inaugurar futuro sem encarar o presente? Porque robô pode até ser moderno. Mas, numa cidade que ainda espera desenvolvimento real na beira do rio, modernidade sem diagnóstico é só brinquedo caro brincando de solução.

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