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Rodrigo Valadares x André David: Sergipe assiste à guerra dos valentões da direita

A disputa pelo Senado em Sergipe resolveu abandonar definitivamente o gênero político e entrar no cinema de ação. De um lado está André David, o Rambo sergipano, delegado, discurso de segurança, pose de combatente e aquela imagem do sujeito que parece estar sempre a cinco segundos de atravessar uma selva com uma faca entre os dentes. Do outro aparece Rodrigo Valadares, o RoboCop da política sergipana, patrulhando redes sociais, escaneando o passado alheio, levantando contratos, cobrando posicionamentos e emitindo acusações como se tivesse um computador eleitoral instalado atrás dos olhos. Rambo prefere o confronto corporal da retórica. RoboCop prefere o scanner. Um entra na mata atirando; o outro chega dizendo: “identifique-se”. E os dois querem convencer exatamente o mesmo eleitor de direita de que o verdadeiro perigo está parado do outro lado.

Essa guerra vem de longe. Rodrigo começou questionando supostos problemas jurídicos de André. André respondeu negando, falando em Justiça e chegando a dizer que poderia renunciar à pré-candidatura se determinadas acusações fossem comprovadas. Foi o primeiro grande encontro entre os personagens. Rambo bateu no peito. RoboCop abriu o arquivo. Depois veio a discussão sobre quem seria mais genuinamente bolsonarista, e aí a política sergipana atingiu um estágio científico fascinante: passou-se a medir fidelidade ideológica por fotografia, postagem, amizade política e até “follow” no Instagram. André respondeu com o famoso “eu nunca fiz o L” e ainda utilizou figurinha de Rodrigo supostamente fazendo o gesto. Rambo não apresentou tese de doutorado. Jogou um meme na mesa e mandou o adversário explicar.

Rodrigo, entretanto, incorporou de vez o espírito RoboCop. Passou a patrulhar André como quem recebeu uma missão diretamente da central de comando: verificar processos, posicionamento sobre Alexandre de Moraes, contratos públicos, relação familiar e totens de segurança. A cada publicação, parecia surgir no visor imaginário uma nova mensagem: “ALVO LOCALIZADO”. O problema é que RoboCop eleitoral precisa tomar cuidado para não confundir investigação política com condenação. As questões envolvendo contratos e familiares foram levantadas por Rodrigo e repercutidas publicamente, mas isso não significa, por si só, irregularidade pessoal comprovada contra André. Uma coisa é ligar o scanner; outra é emitir sentença antes que a máquina termine de processar os dados. Na política brasileira, acusação corre de Ferrari e comprovação costuma chegar de bicicleta.

André também não pode reclamar muito do personagem que escolheu interpretar. Quem constrói a fama de Rambo sergipano precisa compreender que Rambo não foge quando aparece um helicóptero inimigo no horizonte. André cultivou a imagem do homem duro, do delegado destemido, daquele que enfrenta bandido, adversário e microfone sem pedir licença. Pois bem: quando Rodrigo coloca na mesa perguntas sobre contratos, parentes e atuação administrativa, não adianta responder apenas às provocações mais confortáveis. Rambo político precisa entrar na mata inteira, não escolher somente as árvores bonitas para fotografar. Se o personagem é o homem que não teme ninguém, a resposta também precisa chegar quando a pergunta é desagradável. Do contrário, o eleitor começa a desconfiar que a metralhadora retórica talvez tenha seletor de alvo.

E há uma comicidade adicional nessa batalha. Sergipe escolherá dois senadores. Em tese, Rambo e RoboCop poderiam até sobreviver juntos ao final do filme. Mas parecem determinados a provar que o Senado só comporta um super-herói da direita. André tenta mostrar que é mais autêntico, mais popular e mais corajoso. Rodrigo tenta demonstrar que é mais coerente, mais bolsonarista e mais vigilante. Rambo mostra músculo político. RoboCop mostra arquivo. Rambo dispara “nunca fiz o L”.RoboCop responde abrindo mais uma pasta imaginária no sistema. Se continuar assim, daqui a pouco não teremos debate eleitoral, teremos trailer: “Neste outubro, dois homens, duas candidaturas, uma direita e absolutamente nenhuma vontade de dividir o palco”.

O mais divertido é que, enquanto Rambo e RoboCop gastam munição tentando destruir um ao outro, existem outros candidatos ao Senado assistindo gratuitamente ao espetáculo. Cada ataque dentro do mesmo campo político pode retirar votos precisamente do eleitorado que ambos pretendem conquistar. André quer provar que Rodrigo não é aquilo que vende. Rodrigo quer provar que André não é aquilo que parece. E o sergipano fica olhando os dois personagens rodarem pela tela, esperando alguém lembrar que senador também discute orçamento, pacto federativo, economia e interesses do Estado. Por enquanto, Rambo entra com a faca, RoboCop chega com o scanner e a campanha segue com efeitos especiais. Só existe um personagem que nenhum dos dois consegue programar, intimidar ou patrulhar: o eleitor. E esse, quando entra na cabine, desliga a câmera, guarda a pipoca e escolhe sozinho o final do filme.

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