Olá, meus queridos leitores. Hoje escrevo com o coração apertado. E confesso: dói criticar quem a gente gosta. Sou fã assumida dos meninos do Samba do Arnesto e digo “meninos” com carinho ou os “garotões do samba”. Minha filha adora, meu genro é fã de carteirinha e até meu filho tem o repertório deles na playlist. Pois é… Mas o que aconteceu no último sábado (26), no Iate, foi um tropeço feio. Quem estava lá viu e quem não estava ficou sabendo pelas redes sociais, inclusive por um comentário ácido do vereador Lúcio Flávio (PL): o grupo foi vaiado após inserir declarações de cunho político no meio do show. E não foi uma vaia discreta. Foi daquelas que reverberam, incomodam e esvaziam mesas. Houve quem pedisse dinheiro de volta, quem saísse irritado e quem simplesmente levantasse sem olhar para trás. Uma cena constrangedora e que, desculpem a franqueza, poderia ter sido evitada com um pouco mais de cuidado e maturidade artística.
Antes que alguém me acuse de censura, vamos deixar algo claro: arte e política são inseparáveis na essência. Música é pensamento vivo, é cultura, é expressão e o samba, em especial, nasceu como forma de resistência política e social. Eu, Bia, sou uma mulher de esquerda, professora, psicóloga, advogada e pesquisadora de cultura e comportamento. Sei bem que a arte nunca é neutra. Mas existe um “contrato psicológico” entre artista e público que não pode ser ignorado. Quem paga um ingresso para um show de samba, principalmente em um clube tradicional como o Iate, quer entretenimento, leveza, compasso no coração. Quer esquecer por algumas horas os boletos, as tretas políticas e as discussões das redes sociais. Transformar o palco em palanque, ainda mais em um evento pago, é quebrar esse contrato invisível.
E, convenhamos, existe uma diferença entre Ivan Lins e o Samba do Arnesto. Ivan, com seus 80 anos e 55 de carreira, é uma instituição da música brasileira. Pode se dar ao luxo de discursar dez minutos sobre política, porque o público, concordando ou não, respeita sua história. Ivan é história viva. Já vocês, meninos, ainda estão escrevendo a de vocês. E, por mais que sejam talentosos, e são, ainda não conquistaram o capital simbólico que protege veteranos de vaia.
Outro ponto delicado: há um componente quase inevitável de proselitismo no discurso político de vocês. Dois integrantes e até pais de alguns têm histórico sindical, com cargos de presidência em sindicatos. Isso, aos olhos do público, soa menos como opinião pessoal e mais como militância organizada. E, em palco de samba, militância soa como desafino. Não é sobre direita ou esquerda. Eu mesma nunca me alinhei à direita. É sobre tempo, lugar e forma. Arte pode e deve provocar, mas também precisa respeitar o momento. Quem vai a um show de samba quer sambar, rir, cantar, não discutir Bolsonaro, Lula ou qualquer outro político.
A frase, repetida à exaustão por conservadores, de que “quem lacra, não lucra” é reducionista e beira o ridículo. Arte não se mede apenas por lucro; o artista tem o direito de ser político, de ser crítico, de ser humano. O Ira!, por exemplo, enfrentou cancelamentos depois que Nasi gritou “Sem anistia”, mas saiu maior do que entrou. Por quê? Porque a atitude estava alinhada com sua essência, com sua trajetória de rebeldia e contestação. O problema do Samba do Arnesto é outro: não é coerente com a imagem que o público construiu de vocês. O público de vocês não está ali para uma catarse política, está ali pelo samba leve, pelo romantismo bem-humorado, pelo clima de roda de amigos. Trazer um discurso ideológico em um ambiente que não espera isso é criar um ruído enorme entre expectativa e entrega.
E aqui falo com tristeza de fã: vocês merecem, sim, um “toque de cancelamento”. Não como punição definitiva, mas como sinal de alerta. Vocês são jovens, talentosos e têm potencial de crescer muito mais. Mas precisam entender que a música de vocês e o público que a consome, pedem compasso, não confronto. Vou continuar admirando vocês. Vou continuar ouvindo vocês em casa. Mas vou passar um tempo sem ir aos shows. É um protesto de fã que quer ver vocês crescerem sem tropeçar em discursos que não lhes cabem naquele espaço.
Garotões, tomem juízo. Não desperdicem talento com provocações desnecessárias. Vocês não são Ivan Lins, ainda. Mas podem, quem sabe um dia, chegar lá. E para isso, precisam aprender que samba se faz no ritmo do coração do público, não no ritmo dos discursos partidários. Um beijo, com carinho e esperança de que esse tropeço seja só uma lição.





Uma resposta
“Eu, Bia, sou uma mulher de esquerda…”. Moça, você postou no Instagram desse portal de notícias uma homenagem à Moana Valadares e foi bombardeada nos comentários. Tem que decidir se você é de esquerda, direita, de lado, centro, de baixo…
Assim…perde a credibilidade, né?