Entrei no portal do Fausto Leite para fazer o que a boa conversa faz de melhor: olhar os fatos de frente, com carinho pelo contexto, humor leve e um pé firme na psicologia de quem está do outro lado da tela. Quando o Faustinho me convidou para integrar o portal, confesso: a priori disse não. Eu estava confortável nas minhas consultas, entre o Direito e a Psicologia, longe do turbilhão das redes. Só que desafio bom tem perfume de começo, e eu aceitei. Vim com uma missão muito simples (e muito ambiciosa): oferecer contraponto histórico e humano. Pegar um fato aqui, uma viagem ali, uma notícia acolá, e entregar olhar de dois lados, com empatia, contexto e aquele toque de análise que a psicologia adora: colocar-se no lugar do outro.
E assim tenho feito. Recentemente, publiquei um texto sobre os meninos da banda do Seu Arnesto. Comecei pelo óbvio: eu gosto da banda e muito. Meus filhos e meu genro gostam, amigos gostam, e eu já perdi as contas de quantas vezes fui ouvi-los na Praça do Mini Golf e na Orla. Música boa tem esse poder quase político (olha o paradoxo) de nos juntar em torno do que nos afina por dentro. O ponto do meu texto? Contexto e responsabilidade. Em festas privadas, com ingresso pago, a régua muda. Há regras, marcos legais, expectativas do público que comprou um show e não um palanque. Não é sobre calar artistas; é sobre cuidar do espaço em que todos estão. Liberdade de expressão é pilar, mas lugar e forma importam. É jornalismo com alma: uma defesa do diálogo que não passa por cima do contrato com quem está na plateia.
Daí veio a parte mais interessante e, por que não, divertida, de estar na internet em 2025: o gran finale dos comentários. Teve aplauso, teve vaia e teve de tudo um pouco. Chamaram-me de “imatura”, de “bolsominea”, mandaram-me “para aquele lugar” (faz tempo que eu não recebia um convite desses, quase me senti numa comédia romântica sem o romântica). Respirei, observei, print no que extrapolou, pedi ao Instagram que removesse o que cruzou a linha e segui. Porque a regra de ouro aqui é simples: discordar, sim; desrespeitar, não.
E enquanto eu lia cada mensagem, a psicóloga em mim sorria: a internet é um laboratório vivo da mente coletiva. Tem viés de confirmação (a gente busca o que já concorda com o que pensamos). Tem efeito de tribo (eu defendo os “meus”, porque ser de um grupo me dá calor humano). Tem dissonância cognitiva (quando um argumento bom cutuca a nossa certeza, a primeira reação é revidar, não refletir). E tem o efeito bumerangue: quanto mais alguém bate num ídolo, mais os fãs o abraçam. Nada disso me assusta; me educa. Fiz a balança: muitos elogios, muitas críticas, algo como um empate técnico (com viés de quem conta). Números? Já tivemos posts que passaram de 60 mil visualizações, outras com 48 mil, este da banda já ronda 35 mil. Para mim, mais do que o placar, vale o tipo de conversa que nasce dali.
Quando alguém me chama de “velha” ou “gaga”, eu penso: olha a semântica, olha a emoção. Não é sobre mim; é sobre o lugar de afeto daquela pessoa com a banda, com a ideia de liberdade, com uma memória boa de show na Orla. Eu fui ao perfil do rapaz do palavrão, vi o repertório dele, entendi a moldura ideológica e segui. Sem vitrine de rancor. Cinquentona e muito bem-resolvida, obrigada. A idade aqui é capital cultural: me deu repertório para gostar da banda e cobrar contexto. As duas coisas convivem.
Quero sublinhar algo importante: eu não escrevo para vencer, escrevo para somar camadas. A cultura pop é viva, errante, generosa. Às vezes erra o tom, às vezes nos dá a canção que salva a semana. O meu papel, no portal de Faustinho, é trazer o contraponto com alegria, uma alegria que não anestesia o pensamento, mas que o ilumina. Porque a gente pensa melhor de coração leve.
Se você veio até aqui bravo comigo, vem cá: eu te entendo. De verdade. A raiva, muitas vezes, é amor defendendo fronteira. Se você aplaudiu o texto, obrigada. Se você discordou, obrigada também. A discordância educada é patrimônio cultural. Ela cria músculo no debate público. E eu vou continuar escrevendo, ouvindo, aprendendo para que cada coluna seja um convite a esse músculo do espírito que é pensar junto.
A matéria do Samba do Seu Arnesto vai ficar marcada em mim por um motivo lindo: ela me ensinou mais sobre vocês, leitores de hoje, imediatos e intensos e, sobre mim: a moça (com M maiúsculo no coração) que ama música, ama banda, ama conversa boa e acredita que psicologia é ponte, não muro. Sigo aqui, no portal, com meu café, meus livros rabiscados, meu ouvido na rua e o sorriso pronto. Vamos de contraponto, com afeto e argumento. Porque a vida, no fim das contas, é isso: um grande refrão que só fica bonito quando a gente canta em vozes diferentes. Um beijo — e até o próximo texto.




