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Sergipe entrou na guerra do gabiru, da goteira e da lama 

A política sergipana resolveu trocar o palanque tradicional pela vistoria com celular na mão. Nos últimos dias, o secretário Luiz Roberto praticamente virou garoto propaganda da fiscalização pública. Foi ao Mercado Thales Ferraz, mostrou sujeira, reclamou de goteira, denunciou gabiru e quase transformou o mercado num episódio especial de documentário sobre sobrevivência urbana. O vídeo ganhou força porque tinha todos os ingredientes que a internet ama: indignação, chuva, rato grande e câmera tremendo no meio da confusão. Em Sergipe, hoje, se aparecer um gabiru molhado correndo no vídeo, a postagem já nasce com meio milhão de visualizações emocionais.

O problema é que a política possui um senso de humor perverso. Dias depois da crítica ao mercado administrado pela prefeitura, veio a chuva forte e o Ceasa de Aracaju, administrado pelo governo do Estado, apareceu coberto de lama, água, goteira e também o gabiru do mesmo jeito que o Thales Ferraz. Foi quase uma revanche climática institucional. O sergipano abriu o Instagram e ficou sem saber se assistia denúncia da prefeitura contra o governo ou denúncia do governo contra ele mesmo. Parecia campeonato estadual de infiltração pública. E convenhamos: água da chuva não escolhe partido político. Ela entra onde encontra buraco.

No meio dessa novela hidráulica apareceu Hugo Esoj tentando apagar o incêndio com calma administrativa. Disse que tudo estava sendo planejado, que ouviu comerciantes, que esteve ao lado do vereador Milton Dantas, que as reformas estavam dentro do cronograma e que o Forró Caju exigia atenção urgente na estrutura. Foi quase um pronunciamento de engenheiro emocional. Enquanto Luiz Roberto aparecia no modo “repórter investigativo da lama”, Hugo surgiu no estilo “calma, minha gente, o tubo já está vindo”. E assim Sergipe entrou oficialmente na era em que secretário faz vídeo de denúncia e gestor responde com cronograma hidráulico afetivo.

Como se já não bastasse a guerra da goteira, a vereadora Tanata da Ecoterapia entrou em cena denunciando o abandono do Parque dos Cajueiros. Segundo ela, o parque está entregue ao léu enquanto as redes sociais anunciam revitalizações quase cinematográficas. O aracajuano já começa a desenvolver uma habilidade nova: comparar propaganda institucional com a vida real usando apenas um celular e um stories de trinta segundos. A essa altura, o cidadão não sabe mais se acompanha obra pública, série da Netflix ou reality show de infraestrutura nordestina.

E aí mora a ironia mais saborosa da política sergipana atual. Luiz Roberto resolveu subir o tom contra o ex governador Belivaldo Chagas depois da declaração de que “80% das obras entregues” no governo Fábio Mitidieri teriam sido planejadas ainda na gestão passada. Luiz Roberto rebateu praticamente dizendo o seguinte em versão administrativa sofisticada: “planejamento de verdade começou agora”. Segundo ele, antes não existia carteira organizada de projetos, cronograma técnico nem estrutura moderna de engenharia pública. Já a oposição responde mostrando lama, mato alto, goteira e obra atrasada. No fim, Sergipe virou um grande condomínio político onde todo mundo fiscaliza todo mundo. O governo fiscaliza a prefeitura. A prefeitura fiscaliza o governo. Os vereadores fiscalizam os dois. E o povo, claro, fiscaliza todos eles pelo Instagram, com zoom, trilha dramática e comentário indignado em caixa alta.

Hoje, 13 de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima, talvez a única entidade capaz de trazer paz para a política sergipana seja realmente celestial. Porque os ânimos começaram a subir oficialmente. A pré-campanha já está nas ruas, nas redes e até nas poças d’água, na falta d’água e na Iguá. E se prepare: a tendência agora é cada buraco virar debate ideológico, cada rato virar símbolo administrativo e cada goteira ganhar trilha sonora dramática no Instagram. Sergipe entrou na fase em que obra pública não é apenas infraestrutura. É entretenimento político em tempo real.

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