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Sergipe no limite mental

O Brasil está adoecendo de um jeito que já não dá mais para varrer para debaixo do tapete institucional. Em 2024, foram mais de 472 mil licenças médicas por transtornos mentais, um salto de 68% em relação ao ano anterior. Não é oscilação estatística. Não é coincidência. É sintoma de um país que perdeu o fôlego emocional e passou a respirar ansiedade como quem respira ar comprimido. Ansiedade, depressão, burnout e colapsos emocionais deixaram de ser exceções e se tornaram o novo padrão nacional, atravessando lares, empresas, repartições públicas e qualquer espaço onde exista gente tentando sobreviver.

Em Sergipe, o cenário não é diferente e, em silêncio, talvez seja ainda mais grave. Nos bastidores do Poder Judiciário, do Ministério Público, do Tribunal de Contas e das polícias (Civil e Militar), circulam informações internas, sigilosas naturalmente, indicando um aumento significativo nos afastamentos por questões psicológicas. Não é fofoca de corredor, tampouco especulação. É um retrato fiel de instituições que sempre operaram sob pressão, mas agora lidam com um nível de esgotamento emocional que ultrapassou limites saudáveis. Pessoas que, até pouco tempo atrás, seguravam o sistema com a mão, agora lutam para segurar a própria mente.

E nada disso se compara ao drama vivido pelos professores da rede pública. Sergipe não apenas segue a tendência nacional, sente na pele. A sala de aula virou terreno de guerra emocional. A falta de estrutura, o acúmulo de funções, a violência escolar, a pressão por desempenho e a ausência quase total de apoio psicológico formam um coquetel depressivo diário. Exigir equilíbrio emocional de um professor sem oferecer estrutura mínima é como pedir para apagar um incêndio com um copo d’água. A matemática é simples: primeiro vem a ansiedade, depois a depressão, e dali para o suicídio é uma distância assustadoramente curta. E o mais grave é que esse caminho está se repetindo, silencioso, previsível e evitável.

Outros Estados vivem o mesmo pesadelo. Minas Gerais reporta crescimento acelerado de afastamentos por depressão entre servidores públicos. Na Bahia, o adoecimento mental entre professores explodiu após a pandemia. No Rio Grande do Sul, a categoria da segurança pública assiste índices de suicídio que já ultrapassam qualquer parâmetro aceitável. Pernambuco e São Paulo enfrentam verdadeiras epidemias de burnout. Não é uma anomalia. É um fenômeno nacional.

E, ainda assim, as políticas públicas de saúde mental continuam tímidas, fragmentadas, mal financiadas e sejamos sinceros, simbólicas demais para um problema deste tamanho. O que falta não é diagnóstico; é ação. As Secretarias de Saúde do Estado e dos Municípios precisam assumir o protagonismo nesse enfrentamento. É delas, e apenas delas, a responsabilidade institucional de criar programas de prevenção, atendimento contínuo, suporte emocional e protocolos emergenciais para quem está à beira do colapso.

É preciso equipes permanentes de psicólogos e psiquiatras nas escolas, nas delegacias, nos fóruns, nos hospitais, nos órgãos públicos. É preciso criar canais de atendimento rápido para quem está entrando em crise. É preciso capacitar gestores para identificar sinais de adoecimento e não tratá-los como frescura, “manha” ou falta de força de vontade. É preciso vincular saúde mental ao planejamento de políticas educacionais e de segurança pública. E, principalmente, é preciso parar de agir como se ansiedade e depressão fossem problemas individuais. Não são. São problemas coletivos, estruturais e governamentais.

Caso as Secretarias de Saúde e os as instituições não acordarem, daqui a pouco vamos ter que incluir “atendimento psicológico de urgência” como benefício obrigatório do contracheque. Quem sabe até um “auxílio sanidade”, com adicional por estresse emocional acumulado. Pode soar engraçado e é justamente por isso que deveria preocupar tanto.

Sergipe precisa agir. O Brasil precisa reagir. E quem governa precisa assumir que ignorar essa crise é contribuir para ela. A saúde mental deixou de ser pauta opcional. Virou linha de frente. E, quanto mais demorarmos para tratar o problema, mais vidas, histórias, famílias e instituições perderemos pelo caminho. A tragédia está anunciada e desta vez, ninguém poderá dizer que não viu.

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