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Sergipe virou um grande arraial, mas alguém avisa ao bolso do sergipano que agora o forró é de terça a domingo?

O governador Fábio Mitidieri acertou em cheio ao transformar Sergipe numa potência junina. Isso é verdade. O Estado hoje vive no compasso da sanfona, do triângulo e da zabumba. A programação do São João de 2026 parece aquelas festas de interior que começam com café cedo e só acabam quando o último bêbado procura o chinelo perdido. Tem cantor, quadrilha, arraial, vila matuta, bandeirola, milho assado e mais artista por noite do que eleitor em porta de prefeitura em ano de eleição. O problema é que o sergipano olha para o palco lotado e depois olha para a feira livre parecendo enterro de carteira assinada. 

E aí mora o xote apertado da história. Sergipe é um Estado onde muita gente vive do funcionalismo público, do comércio pequeno e do aperreio parcelado em dez vezes. Só que nem o servidor mais animado aguenta arrasta pé de terça a domingo pagando tomate a dez reais, cebola a dez reais e batata custando quase o preço de um espetinho com refrigerante. O centro de Aracaju anda meio murcho em certos horários, as feiras estão mais vazias e cheias de pingueiras e já tem gente olhando para o carrinho do supermercado igual matuto olhando nuvem preta sem saber se vem chuva ou desgraça.

Claro que o turismo ajuda demais. Hotel enche, ambulante trabalha, restaurante respira e a Orla da Atalaia vira praticamente uma capital nordestina improvisada ao som de Asa Branca. O governo acerta ao investir numa festa que movimenta dinheiro e coloca Sergipe no mapa do São João brasileiro. Mas a pergunta começa a rodar no meio do forró igual menino correndo atrás de balão: Sergipe está preparado para receber tanta gente durante tanto tempo? Porque turista vem, dança, toma licor, come amendoim, grava vídeo na vila e vai embora. Quem fica depois é o sergipano brigando com o preço do gás e da carne.

O mais engraçado é que o Estado parece viver duas festas diferentes. Na Orla, é luz, fogueira, multidão, chapéu de couro e sanfoneiro puxando o povo até amanhecer. Já em muitos bairros, o clima é de cautela silenciosa, quase um forró tocado baixinho no rádio de pilha. Tem comerciante segurando o dinheiro no bolso, pequeno empresário com medo do mês seguinte e muita gente fazendo conta para saber se compra mistura ou se espera o salário cair. Sergipe hoje dança agarradinho com a alegria e com a preocupação ao mesmo tempo.

No fim das contas, o governo merece aplauso pela coragem de fazer do São João uma marca forte do estado. Isso gera movimento, renda e orgulho cultural. Mas só festa não resolve aperto econômico, não baixa preço de feira e nem enche bolso de trabalhador o ano inteiro. O desafio agora é fazer essa sanfona tocar também fora do arraial, gerando emprego permanente e aquecendo a economia depois que a fogueira apagar. Porque o sergipano ama um forró. O problema é quando a conta chega antes da saideira do sanfoneiro.

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