O Ministério Público de Sergipe fez o que precisava ser feito, chamou todo mundo para a mesa, apertou, cobrou e abriu o debate sobre a crise hídrica no Ibura. Mérito para o promotor Sandro Luiz da Costa, que colocou o dedo na ferida e puxou uma discussão técnica que há muito tempo precisava acontecer. Mas vamos falar a verdade que o povo de Nossa Senhora do Socorro já sabe de cor, não é só o Ibura, não é só uma “queda de vazão”, é um colapso diário, constante e revoltante no abastecimento de água.
A história contada pela Deso de que o problema começou lá atrás e se agravou agora pode até ter base técnica, mas soa cada vez mais como desculpa repetida. Porque quem mora no Jardim, no Parque dos Faróis, na Piabeta, no Complexo Taiçoca, não precisa de relatório para saber o que está acontecendo, precisa é de água na torneira. E isso não está acontecendo. É falta todo dia, é gente implorando por carro pipa, é rotina de sofrimento que já virou normalidade, o que é ainda mais grave.
E aí entra a Iguá, que assumiu a concessão prometendo eficiência, modernização e solução. Na prática, o que se vê é carro pipa rodando quase diariamente, abastecendo bairros inteiros como se estivéssemos em pleno sertão de estiagem braba. E mais, relatos de bastidores apontam que há um certo “pedido de silêncio”, como se o problema fosse de imagem e não de gestão. Só esqueceram de avisar ao povo que passa sede, porque esse não tem como ficar calado.
O mais curioso, e aqui entra o ponto que ninguém quer encarar de frente, é que o Ibura sempre foi um grande produtor de água. Não estamos falando de uma fonte qualquer, mas de um sistema historicamente relevante para o abastecimento. Então a pergunta que fica no ar, com aquele tom de ironia que o sergipano já aprendeu a usar, é simples, secou de repente ou deixaram secar aos poucos. Porque entre mineração, falha de gestão e ausência de planejamento, alguém precisa assumir essa conta.
O Ministério Público acertou ao agir, mas precisa ir além. Precisa sair da audiência e entrar na cobrança dura, com prazo, com multa, com responsabilização. Porque não é possível que uma cidade inteira dependa de explicação técnica enquanto a população depende de balde, de carro pipa e de favor. Não basta investigar mineradora, tem que cobrar concessionária, cobrar estatal, cobrar todo mundo que está no jogo.
No final das contas, o que se vê é um retrato claro de falha sistêmica. A Deso desgastada, a Iguá ainda longe de entregar o que prometeu e o povo de Socorro pagando a conta mais cara de todas, a sede. E sede não é discurso, não é dado técnico, não é relatório. Sede é urgência. E já passou da hora de tratar como tal.




