O que aconteceu em Nossa Senhora do Socorro nos últimos dias não foi apenas uma sequência de atos administrativos, foi um retrato escancarado de uma gestão que parece cada vez mais ocupada com arrumação política do que com a cidade. Primeiro veio a festa da filiação de Adriana Carvalho ao MDB, com direito a pose, fotografia, discurso e aquele clima de lançamento cuidadosamente embalado. Não parecia uma simples filiação partidária, parecia apresentação de projeto. E o projeto, pelo que se comenta com força, é claro: empurrar Adriana para um espaço de destaque, possivelmente como primeira suplente de Alessandra Vieira, num jogo clássico de apoio trocado por posição.
Até aí, já era muita coisa. Mas a política de Socorro resolveu entregar mais. Na manhã seguinte, ainda antes do povo terminar o café, vieram as exonerações. E o horário virou personagem da história. Cinco horas da manhã não é hora de gestão madura, é hora de galo cantar, de trabalhador se ajeitar para pegar no batente. Pois foi nesse horário que a caneta resolveu correr. Adriano Bandeira saiu, Kit Lima também foi atingida, e a cidade inteira ficou com a sensação de que não se tratava de avaliação administrativa séria, mas de reação política no susto. Quando exoneração nasce da pressa, ela quase sempre revela mais nervosismo do que firmeza.
A saída de Adriano Bandeira pesou porque veio acompanhada daquela leitura popular que pega rápido: ele tentou trabalhar, mas encontrou uma estrutura que mal se sustentava em pé. E foi justamente aí que as falas de Kit Lima aumentaram o estrago político. Ao relatar que a secretaria não tinha condições adequadas de funcionamento, ela jogou luz onde muita gente preferia sombra. Uma pasta voltada à proteção animal sem estrutura mínima, mas com notícia de aluguel alto, passa uma imagem difícil de defender. O povo olha para isso e conclui sem precisar de consultor: tem muita encenação para pouca entrega.
E no meio desse enredo, o prefeito Samuel Carvalho vai se expondo de um jeito perigoso para quem prometeu mudar Socorro. A impressão que fica é que a gestão foi engolida por um projeto familiar e eleitoral. Secretários sendo orientados, energia política concentrada, alianças redesenhadas, antigos vínculos esfriando, e toda a máquina girando menos para a cidade e mais para um plano de grupo. O afastamento de certas figuras, a aproximação com outras e o foco cada vez mais explícito em Adriana mostram que o centro de gravidade saiu do interesse público e foi parar na conveniência política.
Isso ajuda a explicar por que cresce a irritação de quem acompanha a política local. O problema já não é apenas a troca de partido ou a demissão de A ou B. O problema é o conjunto da obra. A cidade esperando gestão, e recebendo movimentação. A população querendo serviço, e ganhando bastidor. O secretário é demitido de madrugada, a aliada denuncia falta de estrutura, a esposa do prefeito é lançada com pompa partidária, e a sensação geral é de que Socorro deixou de ser administrada e passou a ser roteirizada. É muita fumaça para pouca política pública.
Nesse tabuleiro que se reorganiza com velocidade, há também quem já tenha feito a leitura antes dos demais. O ex-prefeito Fábio Henrique não perdeu tempo. Sabendo como o jogo de Samuel funciona e detendo influência em duas ou três secretarias dentro da estrutura de Socorro, tratou de se reposicionar rapidamente. Saiu do União Brasil, rompeu com André Moura sem muita cerimônia e desembarcou no MDB, alinhando-se ao novo centro de poder. Não foi um movimento ideológico, foi cálculo puro. De olho na possibilidade de disputar mandato de estadual, Fábio também reage a um dado incômodo: o desempenho fraco do seu irmão, Adilson Júnior, que não cresce nas pesquisas e ainda enfrenta resistência significativa do eleitorado. Diante desse cenário, a troca de lado deixa de ser surpresa e passa a ser estratégia de sobrevivência política.
No fim das contas, Samuel Carvalho vai criando para si um problema maior do que imagina. Porque uma coisa é fazer articulação, isso toda política faz. Outra é deixar a articulação engolir a administração. E é isso que hoje começa a saltar aos olhos. A filiação de Adriana, a demissão de Adriano Bandeira, as críticas de Kit Lima e a pressa de cinco da manhã não são fatos soltos, são capítulos da mesma história. E a história, até aqui, é dura para o prefeito: enquanto ele parece montar o futuro político da própria casa, Socorro continua esperando alguém governar a cidade.




