Em Capela, a política já deixou de ser disputa eleitoral e virou sessão de terapia com microfone aberto. Na entrevista com Narcizo Machado, Manoel Sukita não foi dar entrevista, foi praticamente fazer inventário da própria grandeza. Falou como quem entra na sala dizendo “podem sentar, porque a história chegou”. Para ele, nem Fábio Mitidieri nem Valmir de Francisquinho sobem em palanque em Capela sem antes passar no cartório emocional de Sukita para reconhecimento de firma política.
A frase foi quase poética: “o palanque não é de Fábio, não é de Valmir, o palanque é de Sukita”. Faltou apenas tocar Caetano Veloso ao fundo com aquele clássico “Narciso acha feio o que não é espelho”, porque ali o espelho estava trabalhando em hora extra. Sukita basicamente explicou que não vai ao palanque de ninguém, são os outros que precisam pedir audiência no palanque dele. Não é apoio político, é agendamento com protocolo e talvez senha preferencial.
Enquanto isso, Cristiano Cavalcante olha tudo isso com a serenidade de quem quer herdar a cadeira sem precisar ouvir discurso de despedida. Cristiano não quer o apoio de Sukita, quer algo mais ousado: ele fora da política com direito a bolo, parabéns e “se suma” da Capela. A leitura é simples: dividir palco com Sukita é como dividir herança com parente brigado, todo mundo sai desconfiado e alguém sempre leva a prataria.
Sukita respondeu no melhor estilo “eu sou o enredo e vocês são os figurantes”. Disse que seu nome vale tanto quanto ou mais que o de Fábio e Valmir juntos, que qualquer lugar de Sergipe sabe quem ele é e para que serve. Convenhamos, autoestima não falta. Se confiança pagasse boleto, Capela já tinha superávit. Ele fala como quem ainda administra a cidade da varanda de casa, tomando café e decidindo o destino eleitoral da região entre uma ligação e outra.
No meio disso tudo, ainda existe a mágoa clássica de família política, que em Sergipe vale mais que herança de fazenda. Sukita reclamou de reuniões sem seu consentimento, de decisões tomadas pelos irmãos, de desrespeito e daquela velha dor de político veterano: construir o grupo e depois descobrir que os outros querem usar a sala sem pedir licença. Traduzindo: ele não ficou pressionado, ficou ofendido. E político ofendido é mais perigoso que adversário declarado, porque ele sorri e arquiva.
No fim, Capela assiste tudo como quem acompanha novela boa e não perde um capítulo. Sukita quer lembrar que ainda é o dono do teatro. Cristiano quer mostrar que o espetáculo já mudou de elenco. Fábio e Valmir observam tentando entender se estão entrando num palanque ou numa audiência de conciliação. E Narcizo, no meio disso tudo, só precisava de um espelho no estúdio e uma trilha de Caetano para transformar a entrevista em obra de arte. Porque em Capela, meu amigo, apoio político não se pede, se negocia como se fosse posse de trono.




