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Todo santo dia, um novo acidente: o massacre silencioso nas ruas de Sergipe

A estatística mente — as mortes não

Todo mundo adora uma boa planilha com setinhas verdes apontando para baixo. E foi exatamente isso que a Polícia Rodoviária Federal (PRF) entregou ao país ao ser premiada, no fim de novembro, por reduzir a “sinistralidade” nas rodovias federais de Sergipe.

Só que a população não circula em gráfico, nem cruza rodovia em PowerPoint. Ela morre. Todo santo dia.

Entre outubro e novembro de 2025, Sergipe viu uma sequência absurda de acidentes cada vez mais letais — principalmente envolvendo motociclistas e colisões frontais. Ou seja, por mais que os números federais exibam uma “tendência de queda”, o sangue não para de escorrer no asfalto.

A matemática da tragédia diária

Os dados oficiais da PRF são bonitos no papel:

IndicadorJan–Out 2024Jan–Out 2025Variação
Sinistros totais541529–2,2%
Sinistros graves197153–22,3%
Feridos610589–3,4%
Mortos6250–19,3%

Mas enquanto a União contabiliza melhorias nas BRs, o restante do estado agoniza: são mais de 12 mortes por mês, segundo o Detran/SE. Isso dá uma média de uma vida perdida a cada 2 dias e meio — fora os feridos, mutilados e traumatizados que as estatísticas não contam direito.

Em Aracaju e no interior, as rodovias estaduais continuam sendo palco de tragédias quase diárias, com cenas que mais parecem roteiro de guerra: motos esmagadas, veículos capotados, corpos lançados em valetas, e cruzes novas sendo fincadas nas beiras das estradas.

Outubro e novembro: dois meses de carnificina

Não foram casos isolados. Foram ondas consecutivas de destruição:

  • 11 a 13 de outubro: cinco sinistros nas rodovias estaduais; três mortos em colisões brutais.
  • 14/10, Boquim: motociclista morre após colisão frontal.
  • 16/10, Capela: capotamento mata um casal de idosos.
  • 18/10, Itabaiana: casal em moto é atropelado por carro a 140 km/h. O motorista fugiu, foi indiciado.
  • 24/10, São Cristóvão: jovem bate moto em vaca e morre. É a nona morte do ano por animal solto na pista.
  • 26/10, interior: três motociclistas mortos em acidentes distintos no mesmo dia.

E novembro manteve o ritmo cruel:

  • 08/11, Aracaju: jovem de 18 anos morre após acidente de moto.
  • 13/11: motorista de ônibus da prefeitura é esmagado pelo próprio veículo.
  • 21/11, BR‑235: colisão frontal mata três pessoas.
  • 23/11, BR‑101: jovem de 18 anos morre ao colidir com caminhão.
  • 24/11, SE‑050: carro bate, capota, e mata passageiro; quatro feridos, incluindo criança.

Não se trata de fatalidades aleatórias. É um padrão estrutural e previsível de matança, que acontece com a frieza de um relógio: um acidente atrás do outro, um corpo após o outro.

Imprudência, velocidade e descaso

Os principais fatores apontados pelos órgãos de trânsito se repetem até a exaustão:

  • Velocidade absurda — como no caso do motorista em Itabaiana a 140 km/h.
  • Celular na mão, direção na outra.
  • Álcool e volante — combinação criminosa que ainda é culturalmente tolerada.
  • Ultrapassagens idiotas e sinalização ignorada.
  • Animais soltos nas pistas — sim, em 2025, ainda se morre por atropelar vaca.

Se o número total de sinistros caiu em algumas áreas, o que aumentou foi a violência dos acidentes. Os mortos não estão apenas mais frequentes: estão mais jovens, mais esmagados, mais evitáveis.

PRF comemora. Mas o povo continua enterrando seus filhos

Sim, a PRF teve seus méritos. Houve redução de sinistros nas BRs. Houve mais fiscalização e operações educativas. Mas isso é só parte do quebra-cabeça.

As rodovias estaduais e zonas urbanas continuam escapando da propaganda otimista — e são nelas que morre a maior parte da população. Enquanto a PRF posa para foto com troféu, as ambulâncias seguem cruzando os bairros de Aracaju, Lagarto, Itabaiana, Nossa Senhora do Socorro e companhia.

A sensação de segurança, que deveria ser o objetivo, simplesmente não chegou ao cidadão comum. A única coisa que chega, pontualmente, é o barulho da sirene.


Quando o trânsito vai parar de matar?

A PRF anunciou a Operação Rodovida para o fim de 2025, prometendo reforço nas fiscalizações. O DNIT tenta correr com a eterna duplicação da BR‑101. Mas, sejamos honestos: sem mudança de cultura, sem fiscalização real e sem responsabilização, 2026 já começa com a tragédia anunciada.

Como disse o delegado de trânsito Raimundo Renato Valença:

“Acidente é imprevisível; sinistro tem responsabilidade. A maioria poderia ter sido evitada.”

Está dito.



Você já perdeu alguém no trânsito? Conhece quem perdeu? Então sabe que essa não é uma matéria — é uma cobrança. Compartilhe, comente e pressione. Porque enquanto a gente não cobrar, as mortes vão continuar sendo só mais uma estatística para enfeitar relatório.


Fontes principais
PRF, Detran/SE, BPRv, SMTT Aracaju, G1, Infonet

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