Há decisões judiciais que resolvem problemas. Outras criam problemas maiores do que aqueles que pretendiam resolver. A canetada de Dias Toffoli contra Renan Santos entrou imediatamente nessa segunda categoria do ponto de vista político. O ministro encontrou uma discussão concreta sobre o cadastramento tardio de redes sociais e respondeu com uma medida extraordinária: tirou o candidato das plataformas, fechou a porta dos debates, das entrevistas e das sabatinas e atingiu até o financiamento eleitoral. Pode existir irregularidade a ser apurada e punida. O que não existe é obrigação de fingir que a consequência política dessa decisão foi pequena. Quem acordou ontem sem saber direito quem era Renan Santos provavelmente foi dormir sabendo seu nome, seu partido, sua candidatura e até que ele brigava com Dias Toffoli. A Justiça tentou diminuir o volume do microfone e terminou instalando caixas de som no Brasil inteiro.
E existe um ingrediente que torna tudo ainda mais explosivo. Renan não começou a falar de Toffoli depois dessa decisão. Durante meses ele atacou politicamente a atuação do ministro no episódio do Banco Master, convocou manifestações e explorou as reportagens envolvendo o Tayayá Resort e antigas relações empresariais de familiares de Toffoli com estruturas financeiras relacionadas ao universo investigado do Master. Isso permite que Renan construa a narrativa de retaliação. Prova vingança? Não. Até agora, não. Jornalismo responsável não entra na cabeça de magistrado para descobrir intenção escondida. Mas justamente por existir esse histórico, seria previsível que qualquer decisão excepcional de Toffoli contra Renan fosse imediatamente interpretada politicamente dessa maneira. Quando um juiz que já é alvo pessoal das críticas de um candidato toma uma decisão capaz de praticamente silenciar a campanha desse mesmo candidato, a pergunta sobre prudência institucional deixa de ser detalhe e entra pela porta da frente.
E talvez esteja aí a grande barrigada política dessa história. Toffoli pode ter restringido juridicamente Renan, mas não possui poder para suspender os jornalistas, os adversários, os comentaristas, os programas de televisão, os podcasts, as rádios e milhões de brasileiros discutindo justamente a decisão. Renan não posta, mas a Folha escreve sobre Renan. Renan não entra no debate, mas os debatedores discutem Renan. Renan não concede a entrevista, mas a entrevista passa a ser sobre por que Renan não pode conceder entrevista. É quase uma campanha eleitoral por procuração, inteiramente involuntária. Vale o velho princípio da comunicação política segundo o qual a pior situação para um candidato desconhecido não é receber crítica, mas permanecer invisível. Renan saiu de candidato de nicho para personagem de uma crise institucional nacional. Parabéns à caneta: tentando apagar o nome, passou marca texto.
A lembrança de 2018 aparece inevitavelmente, embora os fatos sejam radicalmente diferentes. Depois do atentado sofrido por Jair Bolsonaro, ele permaneceu afastado fisicamente de grande parte da campanha enquanto sua condição de saúde ocupava diariamente televisão, rádio, jornais e redes sociais. Não é intelectualmente sério dizer que a facada, isoladamente, elegeu Bolsonaro. É sério reconhecer que aquele episódio transformou a dinâmica da comunicação eleitoral e produziu uma exposição nacional extraordinária sem que o próprio candidato pudesse participar normalmente das ruas e debates. Com Renan ocorre algo muito diferente na origem, mas semelhante no mecanismo comunicacional: a ausência vira presença. O silêncio obrigatório produz conversa. A proibição passa a ser notícia. E cada jornalista que pergunta “por que Renan Santos está fora?” precisa primeiro explicar ao público quem é Renan Santos. Para uma candidatura que lutava exatamente contra a falta de conhecimento nacional, é difícil imaginar publicidade gratuita mais poderosa.
Por isso o grande julgamento desse episódio não será apenas jurídico. O TSE decidirá se houve irregularidade, qual sua gravidade e se a cautelar de Toffoli sobrevive ao escrutínio colegiado. Mas a política já iniciou seu próprio julgamento e talvez tenha produzido a ironia definitiva: tentando retirar Renan da vitrine, Toffoli colocou uma iluminação sobre ele. Se houve vingança, isso precisará ser demonstrado e hoje não está demonstrado. Se houve excesso, o plenário terá oportunidade de corrigi lo. Mas se a intenção prática era reduzir o alcance político do candidato, o tiro já parece ter encontrado a culatra. Renan pode estar proibido de falar em determinados espaços, porém o país inteiro ganhou um motivo para falar dele. E na política existe uma velha máxima que nenhuma liminar conseguiu revogar: para quem ainda luta para ser conhecido, às vezes o adversário mais generoso é justamente aquele que tenta fazê lo desaparecer.




