A Universidade Federal de Sergipe anunciou cotas para pessoas trans, uma vaga por curso, por turno, como quem lança uma coleção cápsula em meio ao caos da moda: bonita, conceitual, instagramável… e completamente fora da realidade do ateliê. É o famoso “see now, believe later: parece avançado, mas a costura não aguenta o primeiro movimento. E eu falo isso com memória afetiva e um quê de nostalgia couture, porque eu fui aluna da UFS na época em que ela ainda tinha shape, estrutura e acabamento. Era um campus com presença de espírito e presença de verba. A UFS de ontem era como uma boa peça de alfaiataria: alinhada, funcional, sólida. Hoje, virou fast fashion de liquidação, estampa bonita na vitrine, tecido rasgando no provador.
A UFS da minha época disputava espaço no MEC, hoje disputa espaço com infiltração. Tinha laboratórios equipados, hoje tem reagente vencido. Tinha professores com brilho no olhar, hoje tem servidor terceirizado recebendo salário que nem figurante de desfile aceita. Tinha biblioteca organizada, hoje tem mofo com carisma próprio. E é dentro desse cenário “pós-apocalipse acadêmico” que anunciam, com toda pompa, a cota trans. É o equivalente universitário a colocar um blazer Balmain numa casa com goteira: o look é lindo, mas o telhado continua desabando. O problema não é a pauta, é o desfile que fazem em cima dela.
Porque discutir inclusão é fundamental, mas transformar minorias em cabides de vitrine institucional não é política pública, é performance. E, pior ainda, performance que cria novas tensões dentro da própria universidade, instaurando o fenômeno mais perigoso da moda identitária: a ditadura das minorias, em que quem levanta a mão para discordar vira automaticamente persona non grata do desfile. A universidade vira passarela fechada, onde só desfila quem repete o tema da coleção. Divergir? Cancelado. Perguntar? Problemático. Questionar critérios? “Ultra fast fashion de opressão.” É o contrário do que a diversidade se propõe a ser.
E antes que romantizem demais o anúncio, vamos ao tecido da questão: como a universidade vai determinar quem é trans? Autodeclaração? Passaporte aberto para oportunistas que veem a cota como atalho. Banca avaliadora? Viramos júri do “Project Identity Runway”. Relato de vida? Competição nacional de sofrimentos. A burocracia da UFS, que já cai quando o aluno tenta emitir o próprio comprovante de matrícula, agora quer julgar subjetividade. É pedir para o botão voar no meio do desfile.
Mas a parte realmente trágica e tragicômica, é o backstage. Porque inclusão não se mede pela entrada glamourosa na passarela, mas pela capacidade de sustentar o look até o final do corredor. A UFS não garante permanência nem para o estudante pobre tradicional. Imagine, então, para quem lida com violência doméstica, expulsão familiar, ausência total de renda, inexistência de políticas de saúde mental e um campus onde até o RU vive com a autoestima baixa. Vaga sem estrutura é como vestido de tule na tempestade: encanta, mas não protege ninguém.
E quando vier evasão porque ela virá, nas estatísticas, nos relatos, nos corredores, a culpa será jogada no estudante. A instituição vai posar para a foto como se tivesse feito sua parte. “Abrimos a porta, eles que não quiseram ficar.” É sempre assim: vitimização vira manchete; abandono vira rodapé de relatório.
O Brasil precisa de políticas que façam pessoas trans chegarem à universidade, claro. Mas precisa muito mais de políticas que façam essas pessoas permanecerem nela, seguras, com dignidade e estrutura. Porque cota trans em universidade colapsada é igual a salto agulha em calçada esburacada: quem escorrega não é o salto, é quem está usando. No fim, a UFS está pendurando paetê em tecido rasgado. E esse brilho, meu bem, não dura nem um turno inteiro.




