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Valmir e o povo: a noite em que o Santa Maria virou a capital da esperança

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A noite de ontem não foi apenas uma data no calendário eleitoral do Republicanos. Foi uma fotografia política de Sergipe, revelada justamente no Santa Maria, bairro que durante décadas carregou nas costas o peso do abandono, do antigo lixão, da penitenciária, da pobreza e dos preconceitos de quem conhece a periferia apenas pelo vidro fechado do carro oficial. Valmir de Francisquinho poderia ter escolhido um salão refrigerado de clubes, um hotel elegante ou algum endereço tradicionalmente reservado às grandes solenidades. Preferiu o Santa Maria. Preferiu o chão onde vive o trabalhador que acorda cedo, pega ônibus lotado, enfrenta fila, paga imposto e quase nunca é convidado para sentar à mesa onde decidem o seu destino. A convenção, assim, começou antes dos discursos: começou pela escolha do endereço.

O Santa Maria praticamente parou. As avenidas próximas ficaram tomadas por automóveis, ônibus, vans, motocicletas e gente chegando de todos os cantos. A estimativa política divulgada por participantes e organizadores girou em torno de 10 mil pessoas, embora não tenha existido uma contagem técnica ou oficial. O número exato, nesse caso, é quase detalhe diante da imagem: havia uma multidão, havia calor humano e havia uma expectativa que não cabia no espaço reservado ao evento. Não era plateia de congresso acadêmico, com crachá, cafezinho e certificado no final. Era povo suando, gritando, abraçando e tentando chegar perto do palco. Era o Santa Maria transformado, por algumas horas, no centro político de Sergipe. Quem buscava um sinal sobre a temperatura da eleição encontrou ali não um termômetro, mas quase uma panela de pressão.

A convenção também estabeleceu um contraste que deverá acompanhar toda a campanha. O governador Fábio Mitidieri constrói sua força prioritariamente conversando com prefeitos, vereadores, deputados, dirigentes partidários e lideranças municipais, algo legítimo e próprio de quem governa e reúne uma ampla estrutura política. Valmir, por sua vez, procura estabelecer uma comunicação direta com o eleitor comum, utilizando palavras simples, imagens cotidianas e uma linguagem que dispensa tradução simultânea. Um conversa com a engrenagem da política; o outro tenta conversar com quem movimenta a engrenagem sem jamais aparecer na fotografia oficial. No Santa Maria, essa diferença ficou exposta. Não se tratava de contar quantos prefeitos estavam no palanque, mas de observar quantas pessoas permaneceram de pé, espremidas e emocionadas, para ouvir um ex-prefeito de Itabaiana falar de sofrimento, perseguição e esperança

Valmir entregou o discurso mais emocional da noite. Em determinado momento, deixou escapar uma frase que resume a narrativa humana que pretende levar à campanha: “Eu gosto de chorar na chuva para não dar ousadia aos meus adversários, às minhas lágrimas descendo sobre o meu rosto. E eu não vou dar ousadia para quem quer me humilhar”. Não foi uma frase fabricada em laboratório de marketing. Foi uma fala com dor, orgulho e resistência. Valmir também voltou a 2022, apresentou-se como alguém impedido de concluir nas urnas o caminho iniciado naquele ano e afirmou que deseja “libertar Sergipe da tirania e da perseguição”. Pode-se concordar ou discordar do conteúdo e da dureza das palavras, mas não se pode negar sua capacidade de comunicar sentimentos. Ele fala como quem conversa na porta de casa, não como quem lê um relatório de cem páginas preparado por assessores que jamais pisaram num terminal de ônibus.

Emília Corrêa ocupou o palco como prefeita de Aracaju, presidente estadual do Republicanos e personagem fundamental da reconstrução daquele agrupamento. Ao afirmar que “o povo de Sergipe quer mudança”, Emília retomou a ligação política construída com Valmir desde 2022 e classificou a convenção como “uma sensação de resgate”. Foi uma fala curta, mas carregada de simbolismo. A prefeita não precisou transformar o microfone em patrimônio familiar nem realizar uma palestra sobre si mesma. Falou da continuidade de um projeto, da confiança no candidato e do sentimento encontrado nas ruas. Emília sabe, pela própria vitória em Aracaju, que uma campanha pode começar sendo tratada como improvável e terminar fazendo muita gente importante procurar no Google onde havia errado. No Santa Maria, ela mostrou que pretende transferir para o projeto estadual parte da energia que a levou à Prefeitura.

Eduardo Amorim também procurou sintetizar sua mensagem, afirmando que “o desejo de mudança continua no povo sergipano”. Defendeu a segurança jurídica da candidatura de Valmir, sustentou que o grupo chega mais unido do que em 2022 e colocou a água no centro do debate ao declarar: “Água é um patrimônio inestimável. Água é vida”. Ao lado dele, André David reforçou sua imagem ligada ao trabalho e aos resultados, dizendo que pretende continuar “trabalhando como sempre trabalhei, dando resultado e encarando o povo”. Foram manifestações breves, sem aquela velha doença das convenções em que cada pessoa recebe um microfone e decide contar a própria biografia desde o jardim de infância. A noite teve objetividade: os discursos foram relativamente curtos, as mensagens eram compreensíveis e o público não precisou de legenda para entender o que cada personagem pretendia representar.

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Priscila Felizola viveu um dos momentos mais delicados e emocionantes da convenção. Estreante numa chapa majoritária e filha do ex-governador Belivaldo Chagas, ela precisava demonstrar que não estava ali apenas em razão do sobrenome. Respondeu com simplicidade que sua trajetória no Senac e no Sebrae foi apresentada como credencial administrativa, enquanto Belivaldo procurou deixar claro que a escolha não resultou de imposição familiar. Priscila falou de coragem, trabalho e disposição para servir. Foi uma estreia sem excesso, sem pirotecnia e sem a tentativa de parecer uma veterana de vinte eleições. Num ambiente onde há candidato que nasce politicamente já querendo discursar como estadista, a naturalidade de Priscila acabou funcionando como seu melhor cartão de visitas.

A ata partidária e a documentação dos candidatos representam agora a etapa jurídica posterior ao ato político. O Republicanos deverá formalizar perante a Justiça Eleitoral as deliberações, os nomes aprovados e os respectivos pedidos de registro, observando os prazos e exigências da legislação eleitoral. Mas a principal ata daquela noite talvez já tenha sido escrita sem papel, carimbo ou assinatura: foi registrada na presença da população do Santa Maria. A convenção mostrou que uma periferia não precisa ser lembrada apenas em relatórios sobre violência, pobreza ou vulnerabilidade; pode ser o local onde um projeto político decide nascer. Ali foi dado o primeiro grande pontapé de uma campanha que ainda precisará explicar propostas, enfrentar questionamentos e disputar cada voto. Mas, naquela noite, entre ruas cheias, lágrimas, abraços e discursos diretos, nasceu uma esperança política que deseja ser ouvida. E o recado do Santa Maria foi simples: em 2026, o povo não pretende assistir à eleição da calçada. Quer entrar, sentar na primeira fila e, sobretudo, tomar a palavra.

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