Valmir de Francisquinho entrou no estúdio sabendo que não receberia pergunta com açúcar nem cafezinho com tapioca. Logo de saída, foi levado ao caso do matadouro de Itabaiana e respondeu: “Se houve alguém por trás disso tudo, a gente não pode afirmar”. Em vez de vestir a fantasia do perseguido e passar dez minutos chorando diante das câmeras, apresentou o resultado que lhe interessava: “Fui inocentado em primeira instância e fui inocentado pelo STJ, 5 a 0 dos ministros que julgaram”. Depois completou: “Nós fizemos uma administração extremamente qualificada, uma administração onde nós desenvolvemos o município de Itabaiana”. Politicamente, a resposta foi eficiente. Valmir não ficou preso ao processo, saiu do banco dos réus da pergunta e voltou para a cadeira de gestor. O marchante conhece o terreno, sabe onde pisa e, quando tentaram empurrá-lo para o passado, ele puxou a conversa para a experiência administrativa.
A pergunta sobre as mulheres trouxe uma frase antiga e incômoda: “Mulher minha não se envolve em política. Mulher e política, esqueça”. Valmir poderia ter reconhecido que a construção foi infeliz, mas preferiu reagir: “Não tem fala machista”. Em seguida, corrigiu o rumo ao declarar: “Acredito na mulher, entendo a necessidade da participação da mulher na vida pública”. Não foi a resposta perfeita, porque político também precisa aprender que palavra lançada não volta para a boca como passarinho para a gaiola. Mas Valmir sustentou sua posição, recordou a presença de mulheres em funções importantes de suas administrações e não demonstrou hostilidade à participação feminina. O episódio serviu para mostrar uma característica conhecida do itabaianense: ele pode até levar um tropeção na frase, mas não fica estendido no chão esperando o adversário tirar fotografia.
Foi no transporte coletivo que o candidato deixou a defesa e apertou o acelerador. “A prefeita Emília aporta R$ 6,3 milhões, porque a passagem custa R$ 7, para ela ficar em R$ 4,50”, explicou. Depois apresentou sua proposta: “Eu fiz o entendimento com a prefeita Emília, nós vamos aportar R$ 100,3 milhões também, para que a passagem do transporte coletivo da Grande Aracaju possa ficar abaixo de R$ 3”. Aqui apareceu o Valmir que pensa com a calculadora numa mão e o ouvido popular na outra. Ele percebeu que passagem não é debate de gabinete, é dinheiro retirado diariamente do bolso de quem pega dois ônibus para trabalhar. Faltou detalhar o período do aporte, a fonte dos recursos e a participação dos demais municípios, pontos que deverão ser cobrados durante a campanha. Ainda assim, foi uma proposta concreta, compreensível e diretamente ligada à vida do trabalhador. Enquanto muita gente promete modernizar o futuro em PowerPoint, Valmir falou do dinheiro que falta hoje para comprar o pão.
Na água, o marchante entrou pisando firme e sem medo de molhar o sapato. Sobre a concessão dos serviços, declarou: “Nós temos alguns advogados extremamente competentes que já fizeram toda a análise”. Em seguida, foi ao ponto: “É possível fazer o distrato do descumprimento que a Iguá está fazendo, que é de fornecer a água”. A ruptura de uma concessão exige processo administrativo, prova do inadimplemento, respeito ao contrato e garantia de defesa, mas a posição política ficou cristalina: se a empresa não entregar água, o Governo não pode funcionar como plateia de torneira seca. Valmir resumiu o drama em uma frase que vale mais do que muito relatório enfeitado: “A torneira seca e a conta alta”. Depois disparou: “Onde está o dinheiro da Deso?” Aí o estúdio quase virou balcão de prestação de contas, porque pergunta simples costuma provocar mais suor do que discurso complicado.
Na entrevista mais extensa concedida à TV Atalaia, Valmir ampliou o diagnóstico e afirmou: “A saúde de Sergipe, você vê que está um caos absoluto”. Em seguida, apresentou o caminho: “Nós vamos construir um outro hospital regional” e “Vamos descentralizar a saúde nos hospitais regionais”. A proposta revela compreensão de que o Huse não pode continuar carregando Sergipe inteiro nas costas como se fosse um jegue administrativo. O candidato defendeu que os hospitais regionais realizem mais exames, cirurgias e atendimentos especializados, deixando o Huse concentrado nos casos de trauma, urgência e alta complexidade. Somaram se a isso os compromissos com o piso dos professores e com o adicional de periculosidade dos policiais. Valmir falou com quem ensina e com quem protege, duas categorias que o poder público costuma procurar na crise e esquecer na folha de pagamento.
No encerramento, Valmir recuperou a ferida eleitoral de 2022 e declarou: “Tomaram a eleição”. A frase traduz sua interpretação política de um pleito no qual recebeu 457.922 votos, embora sua candidatura estivesse juridicamente indeferida naquele momento e esses votos não tenham integrado o resultado oficial. Agora, com a candidatura deferida, ele se apresenta ao eleitor sem aquela nuvem jurídica e promete ser “um dos melhores governadores da história do Estado”. Pode parecer ousadia, mas eleição não é concurso para escolher o candidato mais tímido. A entrevista mostrou um Valmir que enfrentou processo, declaração polêmica, transporte, água, saúde, servidores e o próprio passado sem pedir intervalo. Começou sendo interrogado e terminou projetando governo. Não entregou resposta perfeita em todos os temas, mas demonstrou domínio político, experiência municipal e coragem para assumir compromissos. O marchante está preparado, conhece a feira, sabe negociar e mostrou que não pretende conduzir Sergipe olhando pelo retrovisor.




