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A verdade da UPA está na conta, não no palanque

A corrida pela paternidade da UPA de Itabaiana está ensinando uma velha lição da política brasileira: quando o dinheiro chega, aparecem muitos pais; quando a obra atrasa, todos procuram um padrasto. Nos últimos dias, o debate deixou de ser sobre atendimento médico para virar uma disputa de versões. Uns garantem que enviaram os recursos. Outros dizem que nunca receberam. Há quem afirme que o dinheiro está parado na conta. E, no meio desse tiroteio verbal, sobra para o cidadão tentar entender uma linguagem que deveria ser traduzida pelo poder público, não transformada em munição eleitoral.

A primeira crítica precisa alcançar Brasília. Nem o senador Laércio Oliveira nem o senador Alessandro Vieira conseguiram explicar ao cidadão comum, de maneira didática, o que diferencia uma emenda Pix de uma emenda tradicional. A maioria da população sequer sabe que uma transferência especial não nasce necessariamente vinculada a uma obra específica. O dinheiro pode ingressar no caixa do município e, mediante plano de ação, ser destinado a investimentos diversos. Quando essa explicação não é feita, instala-se um ambiente perfeito para o marketing político: um diz que mandou, outro diz que perdeu, outro diz que nunca chegou. E o eleitor continua sem saber onde termina a propaganda e começa o documento.

Nesse cenário, chama atenção a postura do ex-prefeito Adailton Sousa. Em vez de responder apenas com frases de efeito, explicou publicamente que os recursos permanecem na conta do município, vinculados ao plano de ação da futura UPA, aguardando apenas as etapas técnicas e burocráticas para que a obra possa ser licitada. É exatamente esse tipo de informação que deveria ter sido apresentada desde o primeiro dia do debate. Em política, coragem também é abrir a planilha, mostrar o extrato, explicar o rito administrativo e enfrentar a crítica sem transformar cada entrevista em um palanque.

O prefeito Zequinha da Cenoura, por sua vez, parece ter compreendido uma realidade simples: enquanto a burocracia federal caminha no seu próprio ritmo, a população continua adoecendo todos os dias. Por isso, decidiu ampliar a rede municipal, estruturando uma unidade de atendimento vinte e quatro horas, com leitos de observação, estabilização e equipes preparadas para absorver parte da demanda. Não é a UPA definitiva mas é uma resposta concreta para diminuir a pressão sobre o sistema. Em administração pública, improvisar soluções responsáveis vale muito mais do que colecionar discursos prontos.

Também é preciso fazer justiça a Itabaiana. Nos últimos dias, criou-se uma narrativa de que o município estaria completamente desassistido na área da saúde. Não corresponde aos fatos. O município conta com o Hospital Regional de Itabaiana, referência para todo o agreste sergipano, responsável por atendimentos de urgência, emergência, cirurgias e internações. Como toda unidade pública de grande porte, enfrenta desafios, filas e períodos de sobrecarga. Mas reduzir toda a estrutura de saúde do município a uma caricatura política seria desrespeitar os profissionais que trabalham diariamente para manter o atendimento funcionando e ignorar a importância regional do hospital.

O episódio, porém, produz uma ironia que a política talvez não tenha percebido. Enquanto Sergipe discute uma portaria que restringe a captação de imagens nas unidades estaduais de saúde sob o argumento da proteção da privacidade, Itabaiana discute como ampliar sua capacidade de atendimento justamente para diminuir a pressão sobre o Hospital Regional. De um lado, a lente desperta desconforto. Do outro, a preocupação é criar mais portas de entrada para o paciente. É difícil convencer a população de que transparência incomoda mais do que a fila.

No fim, essa história deixa uma lição que vale muito mais do que qualquer disputa entre grupos políticos. Emenda parlamentar não é troféu de campanha. É dinheiro público. E dinheiro público exige transparência absoluta, documentos disponíveis e prestação de contas permanente. O cidadão não precisa decorar o número da emenda, entender o funcionamento do Transferegov ou distinguir empenho de pagamento. Essa obrigação pertence aos agentes públicos. Quem anuncia recurso deve explicar como ele funciona. Quem recebe deve mostrar onde ele está. Quem executa deve provar onde foi aplicado.

Porque hospital não se constrói com entrevista. UPA não nasce de vídeo em rede social. E saúde pública não melhora na velocidade do marketing. Ela melhora quando o documento substitui o discurso, quando a obra substitui a promessa e quando o cidadão deixa de ser espectador da guerra política para voltar a ser o verdadeiro destinatário da política pública. É esse o debate que Itabaiana merece. E é esse o nível de transparência que a população tem o direito de exigir de todos, sem exceção.

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