Há perguntas que uma mulher aprende a engolir antes mesmo de formular. Não por falta de coragem, mas por excesso de cálculo. A gente mede o tom, mede a sala, mede a reação dos filhos, mede o tamanho do homem que grita e, quando percebe, já transformou prudência em silêncio. Pois bem: silêncio também cansa. E quando o assunto envolve contratos públicos, poder político, intimidação verbal e a velha mania de achar que mulher só pode opinar depois de pedir licença, a resposta precisa vir com batom, coluna ereta e nota fiscal.
O caso dos contratos milionários envolvendo a empresa ligada à cunhada de André David não autoriza condenações precipitadas, mas autoriza perguntas. E perguntas, ao contrário do que alguns imaginam, não precisam de porte de arma, distintivo nem autorização masculina. A reportagem apontou contratos que somam quase R$ 20 milhões com a Prefeitura de Aracaju, envolvendo fardamento e kits escolares. André negou participação. A Prefeitura disse que tudo seguiu os critérios legais. Ótimo. Então que se abra tudo com serenidade: contrato, entrega, fiscalização, pagamento e justificativa. Transparência não é castigo. É higiene administrativa.
O problema é que André David construiu sua imagem pública como homem da ordem, da fala dura, do enfrentamento. Só que a política tem uma elegância cruel: ela devolve ao personagem o figurino que ele mesmo escolheu. Quem se apresenta como rigoroso precisa aceitar rigor. Quem cobra explicações precisa explicar. Quem fala grosso com o mundo precisa aprender que mulher jornalista não é aluna em sala de castigo, esperando autorização para escrever sobre segurança pública, administração ou qualquer outro tema que envolva dinheiro público e interesse coletivo.
Quando um homem sugere que uma mulher deveria pedir opinião antes de escrever, ele não está apenas discordando de uma matéria. Está tentando recolocá-la no velho lugar da permissão. É o camarim mofado do poder: o homem fala, a mulher consulta; o homem acusa, a mulher se justifica; o homem levanta a voz, a mulher pensa nos filhos e recua. Só que há um limite. E esse limite chega quando a crítica pública deixa de ser debate e começa a parecer recado.
A mulher que se cala nem sempre se cala por fraqueza. Às vezes se cala porque tem filhos, netos, casa, trabalho, história e uma conta emocional que homem nenhum costuma pagar. Mas chega uma hora em que o silêncio vira cumplicidade com o próprio constrangimento. E nenhuma mulher que criou filhos, dirigiu equipes, enfrentou repartições, salas frias, egos quentes e homens cheios de certeza precisa receber tutorial de coragem de quem confunde autoridade com volume de voz.
O sergipano não precisa de justiceiro. Precisa de representante público equilibrado, preparado e capaz de suportar crítica sem transformar divergência em duelo. Senado não é porta de delegacia, tribuna não é viatura e debate público não se resolve no chute da fechadura. Até porque o próprio secretário de Segurança Pública, João Eloy, já reduziu a fantasia do xerife ao tamanho de uma crítica demolidora, ao afirmar que André David seria mais conhecido por arrombar portas e cumpridor de papel do que por saber investigar. É uma frase dura, daquelas que não precisam de sirene para fazer barulho. Um senador precisa dialogar, fiscalizar, estudar orçamento, compreender administração pública, respeitar a imprensa e responder ao contraditório com dados, não com pose de protagonista de filme policial em baixa resolução.
E se André David quiser aulas sobre gestão pública, transparência, comunicação institucional ou até sobre a delicada arte de ouvir uma mulher sem se sentir diminuído por isso, a porta está aberta. Não como provocação barata, mas como serviço público. E, se desejar uma aula básica sobre boas maneiras no tratamento a um advogado no pleno exercício da profissão dentro de uma delegacia, talvez possa começar pelo caso do advogado Ricardo Ramos, que afirma ter sofrido intimidação, ameaça e agressão dentro da delegacia de André David, episódio que, segundo consta, é objeto de processo criminal. Porque há uma diferença enorme entre autoridade e abuso de autoridade. A primeira organiza o Estado. A segunda desorganiza qualquer discurso de preparo para a vida pública.
No fim, a pergunta é simples: quem teme uma coluna escrita por uma mulher talvez não esteja tão seguro assim da própria narrativa. A democracia não exige que todos gostem do que é publicado. Exige que todos suportem ser questionados. Inclusive os duros. Inclusive os valentes. Inclusive os que acham que entendem de tudo. Porque poder público não é território privado. E mulher nenhuma precisa pedir licença para acender a luz.




