A política tem uma relação complicada com a memória. Quem está no poder costuma imaginar que toda frase nasce pela manhã e morre antes do jantar. Só que algumas palavras não morrem. Ganham pernas, palanque e, eventualmente, votos. Adiberto Souza prestou um belo serviço à memória política ao recuperar o episódio de João Alves Filho com Marcelo Déda. Em dezembro de 2004, João tentou enquadrar o então prefeito como “menino”. Déda percebeu imediatamente o presente que recebera: respondeu que ser menino lembrava suas raízes, juventude e desejo de renovação, contrapondo o “menino Déda” ao “velho João”. A provocação destinada a diminuí-lo virou marca política.
Vinte e dois anos depois, Fábio Mitidieri parece ter colocado outro presente na porta de um adversário. Ao atacar Valmir de Francisquinho, afirmou: “Sergipe quer um governador, Sergipe não quer um marchante. Sergipe quer alguém que saiba trabalhar”. O problema não é apenas eleitoral. A construção carrega um desconfortável viés social: contrapõe a profissão de marchante à ideia de alguém que “sabe trabalhar”, como se negociar gado, enfrentar feira, acordar cedo e ganhar a vida no comércio de carne fosse atividade menor. Valmir reagiu justamente por esse caminho, dizendo que a frase atingia a classe trabalhadora. Fábio queria atingir um candidato. Arriscou acertar uma profissão inteira.
É aí que “menino” e “marchante” se encontram na história política de Sergipe. João Alves aparentemente queria que “menino” significasse inexperiência. Déda respondeu: então serei o menino da mudança. Fábio pretendeu que “marchante” funcionasse como contraste com capacidade de governar. O perigo é Valmir responder: então serei o marchante que trabalhou desde cedo e chegou até aqui. Política possui essa ironia extraordinária. O candidato prepara uma pedra para jogar no adversário e, quando percebe, entregou gratuitamente o tijolo com que o outro está construindo o próprio palanque.
Déda compreendeu essa alquimia como poucos. Em discurso posteriormente reproduzido em publicação da Justiça Eleitoral, voltou a se apresentar como “menino de cabelo branco”, já aos 46 anos. O apelido que deveria diminuir sua estatura havia sido confiscado e transformado em identidade. Em 2006, Déda derrotou João Alves ainda no primeiro turno, com 52,46% dos votos válidos contra 45,02%. Seria simplório dizer que venceu por causa de uma palavra. Havia governo, alianças, Lula, desgaste político, estratégia e circunstâncias próprias daquela eleição. Mas a história ensina algo precioso: jamais entregue ao adversário um insulto que ele possa usar como biografia.
É por isso que jornalistas como Adiberto, Luiz Eduardo Costa, Jozailto Lima, Marcos Cardoso, Cláudio Nunes, Rita Oliveira, César Gama e tantos outros são importantes numa eleição. Eles carregam aquilo que algoritmo nenhum substitui completamente: contexto. Adiberto possui quase de quatro décadas de jornalismo e longa passagem pela cobertura política sergipana. Essa geração lembra que o político de hoje frequentemente está repetindo uma cena antiga acreditando que inventou o roteiro. O Instagram possui velocidade. Jornalista velho de guerra possui arquivo. E arquivo é um adversário terrível para quem sofre de amnésia eleitoral.
Talvez Fábio devesse olhar com atenção para a história do “menino” Déda. Não porque 2006 vá necessariamente se repetir em 2026, mas porque a psicologia eleitoral continua reconhecível. Quando o poderoso procura diminuir alguém por aquilo que ele foi, pode acabar valorizando justamente a trajetória que pretendia atacar. “Menino” virou juventude e renovação. “Marchante” pode virar trabalho, origem popular e superação. A política tem dessas perversidades: às vezes uma campanha gasta milhões procurando um slogan e o adversário, num momento de inspiração infeliz, oferece um gratuitamente.
Marcelo Déda ensinou que palavra ofensiva não precisa ser devolvida. Pode ser apropriada. João disse “menino”; Déda respondeu “menino, sim”. Agora Fábio disse “marchante”, e Valmir já tenta responder no mesmo terreno: “trabalhador, sim”. Não significa que a história terminará igual. Significa apenas que o governador talvez tenha cometido um dos erros mais antigos da comunicação política: atacar a origem do adversário e terminar lembrando ao eleitor de onde ele veio. Porque obra inaugura, pesquisa muda e palanque desmonta. Mas certas palavras entram para a campanha e simplesmente se recusam a ir embora.




